Pare o vórtice

Deu-se o primeiro turno das eleições municipais. Em São Paulo, onde eu voto, não houve grande supresa em relação àquilo que já se delineava nas semanas antecedentes ao pleito – ao menos não na minha bolha do Instagram –, o que não significa que detalhes não devam ser observados minuciosamente.

Não sou analista de imprensa e muito menos cientista político, mas gosto de eleições; identifico-me com o espectro de esquerda e tenho acesso amplo a diferentes veículos de imprensa. Sobretudo, sou eleitor atento e humanista convicto e comprovado. Além disso, gosto de distribuir minha opinião por aí. Vamos a ela:

O grande deleite das eleições paulistanas de 2020 foi a ida de Guilherme Boulos para o segundo turno. Candidato de partido nanico, mas estrondoso – o PSOL – Boulos aliou-se a Luíza Erundina, figura histórica da esquerda nacional, que aos 85 anos de idade decidiu ofertar seu carisma, experiência e histórico a um projeto de esquerda que parecia pouco provável, mas revelou-se uma grande força. Ainda que não ganhe o mandato, o feito da dupla já impressionante.

Bruno Covas, candidato do establishment, parecia menos indigesto antes da campanha. Revelou-se aquilo que é: político de carreira das linhas mais liberalistas do PSDB. Soube usar do histórico pessoal com o câncer para galgar alguma simpatia, o contexto era propício: a sociedade brasileira como um todo está acaçapada pela Covid. Covas orgulha-se do avô, mas fato é que há muito pouco de Mário em Bruno e muito de João Dória lhe escapa por todas as falas. Ainda que haja notório esforço de esconder o governador, embora as decisões do governo do estado tenham sido razoáveis durante a pandemia, Dória tem altíssima rejeição na capital e Bruno sabe disso. 

A relação dúbia de parte da população paulistana com o PSDB é o que justifica o terceiro lugar de Márcio França. França pode ter soado como uma alternativa ao PSDB em 2018, mas ele era vice-governador justamente do tucano Alckmin e agora tenta colar a pecha de “invasor" em Boulos. Esse é o problema de Márcio: afinal, que pito ele toca?

O asqueroso Russomano, candidato de Bolsonaro, repete em 2020 os feitos de 2012 e 2016. Nome abençoado por Edir Macedo, com programa de televisão na Record, é nome conhecido do grande público, mas “público" e “eleitorado" são faces distintas de uma mesma moeda. Outra vez ele amarga uma derrota humilhante, mas, desta vez, leva Bolsonaro consigo para o fundo poço. Que esse naufrágio se consolide em 2022!

Artur do Val realizou perfomance considerável com seu jeito de brucutu ignorantão. Seu eleitorado é predominantemente aquele que se identifica com machismo, intolerância, misoginia, homofobia e violência: macho branco conservador heterotop de pouca instrução e muita certeza de serem os privilegiados do mundo. Esse grupo já alçou Bolsonaro à presidência, que pare por aí.

Jilmar Tatto fundou (e afundou) uma candidatura em sua teimosia. Sem o apoio pleno de Fernando Haddad e de Lula, muito mais propensos a Boulos, Tatto, com seu carisma de busão lotado em dia de chuva, arrastou o PT para mais incertezas e a esquerda para mais fragmentação. É necessário, contudo, ressalvar a expressiva votação em Eduardo Suplicy, petista legitimíssimo, vereador mais votado do país, com 167.552 votos. Morto o PT não está.

Joice Hasselman tinha uma campanha na televisão muito bem construída, mas é impalatável até para a parcela da direita que a alçou à política. Comparando-se o número total de votos que ela recebeu ao número de votos que Tatto recebeu, Joice foi massacrada pelo PT. A parte mais interessante do seu fracasso é ser ela da turma dos bolsonaristas arrependidos, o que pode indicar uma possível perda de forças de outro arrependido: o parcial ex-juíz Sérgio Moro. Que caiam logo todos no esquecimento, os convictos e os compungidos.

Andrea Matarazzo, político ressentido, e Marina Helou, estreante, comprovam que política não se faz sozinho. Ele, amargurado, queria ser o candidato tucano, ela, novata, está longe da musculatura necessária.

Orlando Silva é um excelente quadro da esquerda: sensato, com a experiência necessária para tocar com firmeza em assuntos como racismo, não consegue ir longe sem coligações robustas. Ele é do PC do B, mesmo partido de Manuela Dávila, que foi para o segundo em Porto Alegre. Nenhum dos dois deve ser ignorado. Mas é preocupante que alguém com esses méritos tenha performance nas urnas semelhante a de Levy Fidelix, o lunático do aerotrem, representante da ala mais repugnante da política fisiologista.

Para além de todas essas questões, a abstenção tem sido cada vez maior. Em São Paulo, não comparecimento, votos nulos e votos brancos chegam à casa dos 30%, isso sim pode ser um grande problema a longo prazo se continuar marcando o desinteresse do eleitorado e, mais que isso, a perda da cultura do voto, tão essencial à amplitude discursiva e ao fortalecimento democrático.

A expectativa, enfim, é a de que, no segundo turno, a capital paulista, maior colégio eleitoral do país, dê mostras de que é possível tirar o Brasil do vórtice de obscurantismo negacionista, fascista e genocida em que entramos. É possível e havemos de testemunhá-la nos próximos 15 dias. 

Comentários

AmandaCg disse…
Ótima análise! ��

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