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Mostrando postagens de julho, 2020

O retorno

Cento e trinta e três dias, mais de um terço do ano de 2020 está sob jugo do distanciamento social. Se houvera sido apenas poucos dias, não permaneceriam tantas dúvidas agora e muito luto seria evitado.  No começo, o medo e a incerteza tomavam conta de maneira mais visível, agora pergunto-me a quantas anda a percepção de parcela dos brasileiros que, de início, estocava papel higiênico e agora frequenta bares e academias de ginástica. Há certa nuance a ser considerada, claro. De fato, a ordem do dia é ir retomando algumas atividades, com segurança, e perceber como reorganizar o pacto social sobre outras condições sanitárias, dado que a condução da crise no Brasil ficou entre as piores do planeta, resta avaliar o tamanho da desgraça e tentar evitar ao máximo que ela se agrave ainda mais, até que a vacina enfim seja alcançada e distribuída para todos.  Oficialmente, São Paulo entrou em quarentena em 16 de março, àquela altura, jamais imaginei que ficaria tanto tempo imerso em uma...

Um outro caminho

Desarraigar velhos costumes e adquirir novos comportamentos talvez seja das mais óbvias e difíceis decisões da vida. Embora possa parecer trivial substituir uma prática tóxica por algo positivo ou simplesmente deixá-la de lado, não é bem assim. Temos o péssimo hábito de acomodar aos nossos estilos de vida e aos vícios adquiridos ao longo de anos. Mudar uma realidade, mudar uma postura, mudar uma forma de pensar é extremamente desafiador e pode, inclusive, ser desgastante e criar burburinhos no entorno, mais fácil é deixar tudo como está. Enquanto sociedade, estamos imersos em um importante ponto de virada, ou deveríamos estar, embora haja dúvidas se a crise da pandemia de coronavírus realmente trará uma nova postura humana para nossos dias. Provavelmente não, o que torna mais triste as mortes, que podem ter sido em vão.  Aprender a mudar, melhor, tomar a decisão de transformar-se a partir de uma experiência deveria ser das mais simples e óbvias sabedorias humanas. Pena que não é...

A desordem do dia

Certa vez, alunos me disseram que ouvem minha voz quando estão fazendo as provas dos vestibulares. Fiquei surpreso, grato, e nunca mais me esqueci. Aquilo ressoou em mim como uma declaração de amor, uma confirmação de que, dentro das condições estabelecidas, eu estava realizando bem o meu trabalho. Sempre quis ser claro no que digo e – principalmente na sala de aula, – em como digo. Acredito ser parte da função: não basta conhecer amplamente o conteúdo a ser ministrado, é fundamental saber dizê-lo. Quando da circunstância dessa revelação, ousei verificar em outras turmas, outros contextos, e a assertiva mostrou-se verdadeira e recorrente: alunos ouvem minha voz em suas mentes enquanto fazem as provas. Senti lisonja! Lembro-me ter contado essa história a uma amiga, professora experiente, e ela ter sentenciado: “Os alunos têm uma relação espiritual com você.”. Achei assombroso. De algum modo, a consciência desse fato aumentava em muito minha responsabilidade para com os alunos. Sala de a...

Nem para sempre, nem nunca mais

Se viajar no tempo fosse realmente possível, são alucinantes as hipóteses do que aconteceria à humanidade a partir dessa descoberta. Até aqui, é bem pouco provável que o tenhamos realizado num futuro próximo – e mesmo distante. Talvez, inclusive, a humanidade destrua-se antes de conseguir fazê-lo ou – pior – acabe com o planeta Terra antes disso. De todo modo, são inimagináveis as realizações e desgraças que executaríamos: muitas tragédias seriam evitáveis e muitas dores seriam provocadas se a reordenação do tempo viesse a ser corriqueira. Ser humano é bicho passional, condicionado a um modelo de vida que leva a crer que pode dominar o universo, a natureza e o os outros. Viajar no tempo é tão tentador quanto conquistar a imortalidade, embora viajar no tempo pode não ser tão útil quanto pode parecer – assim como a imortalidade não o seria. O controle absoluto sobre aquilo que acontece ou sobre o que se sente nas múltiplas vivências de uma vida poderia ser tão prejudicial e perigoso à ...