O retorno

Cento e trinta e três dias, mais de um terço do ano de 2020 está sob jugo do distanciamento social. Se houvera sido apenas poucos dias, não permaneceriam tantas dúvidas agora e muito luto seria evitado. 

No começo, o medo e a incerteza tomavam conta de maneira mais visível, agora pergunto-me a quantas anda a percepção de parcela dos brasileiros que, de início, estocava papel higiênico e agora frequenta bares e academias de ginástica.

Há certa nuance a ser considerada, claro. De fato, a ordem do dia é ir retomando algumas atividades, com segurança, e perceber como reorganizar o pacto social sobre outras condições sanitárias, dado que a condução da crise no Brasil ficou entre as piores do planeta, resta avaliar o tamanho da desgraça e tentar evitar ao máximo que ela se agrave ainda mais, até que a vacina enfim seja alcançada e distribuída para todos. 

Oficialmente, São Paulo entrou em quarentena em 16 de março, àquela altura, jamais imaginei que ficaria tanto tempo imerso em uma rotina totalmente alternativa. O sentimento é dúbio: de um lado, a imposição de recolhimento que podia impulsionar introspecção e amadurecimento; do outro, a narrativa diária na imprensa sobre o tamanho da calamidade – que só aumenta –; o impacto da crise econômica que se aprofunda; a inescapável necessidade de retomar atividades não só por razões financeiras; a vergonhosa, alarmante, e absurda política de morte perpetrada por um governo federal que só promove mais calamidade e desrespeita vidas. Aliás, nós, que vivemos no Brasil e estamos sobrevivendo à Covid-19, quaisquer que sejam nossas carências ou privilégios, estamos sobrevivendo apesar de Bolsonaro. Se o primeiro ano de governo já foi vergonhoso e uma demonstração inesgotável de ignorância e incompetência, o segundo se consolida como uma política de morte, sequer disfarçada, escancarada em “e daí’s”, desflorestamento, filas na Caixa, precarização do trabalho, corte de salário, desemprego, financiamento de notícias falsas, neoliberalismo e hidroxicloroquina. Sem falar em mamata, fisiologismo, crime de responsabilidade e burrice mesmo, dele e de seu séquito. Aliás, sejamos justos, Bolsonaro é um grande ignorante, mas de burro ele não tem nada, tem é muita maldade e bastante empenho em implementar um "Estado suicidário”, como definiu o professor Vladimir Safatle, em texto publicado no site da n-1 edições: “Um Estado como o nosso não é apenas o gestor da morte. Ele é o ator contínuo de sua própria catástrofe”.

Bolsonaro é o que de pior poderia estar acontecendo ao Brasil em uma crise como essa. Fora ele e Fernando Haddad, havia outras onze opções. Onze! E escolhemos eleger um Estado de ignorância, miséria, desigualdade e morte, em tentativa frustada de dar sobrevida ao combalido capitalismo neoliberal, que já não faz mais o menor sentido, pelo menos desde a crise de crédito em 2008, mas certamente por todo o terceiro milênio e adiante. Preservar o meio ambiente, reconhecer a dignidade humana e promover a igualdade social são o cerne e o rumo do que a espécie precisa daqui para frente, por nós mesmos e para que ainda haja a possibilidade de futuro. Em síntese, o gênero humano precisa do completo oposto do que a chusma bolsonarista representa e pretende. 

Passei semanas refletindo sobre o significado e uso das expressões “quarentena”, “isolamento social” e “distanciamento social” até preferir “distanciamento” e compreender que se trata do contrário disso. Esses meses todos que ficamos (e ainda estamos) em distanciamento social não eram sobre isolar-se da sociedade, mas sobre pensar nela com responsabilidade e comprometimento. É cedo para o retorno, é cedo para malhar o glúteo, para o passeio nas lojas, para a cerveja no bar, para o churrasco em família, para os rituais religiosos e até para as escolas. Nunca é tarde para a revolução. E que ela comece agora, com a consciência de que vida não é bem capital, que é inalienável e que cabe ao Estado o dever de dar garantias e condições dignas e salutares para a preservação de todas elas, sem distinção. Não é com neoliberalismo e gestão de mortes que chegaremos lá. 


Citação: https://n-1edicoes.org/004

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