Sintomática

A sugestão de que se olhe para dentro de si é das tarefas mais repetidas e alardeadas em inúmeras opções de autoajuda disponíveis no mercado, de uns tempos para cá, inventaram até uma bizarrice de nome cafona anglófono para qualquer um que se autodenomine capaz de orientar os outros a seguirem suas vidas. 

De fato, com a ascensão de tantas possibilidades de existência e a crise da subjetividade cada vez mais incisiva, não é de se admirar que centenas de pessoas queiram tirar seu quinhão das nossas psicopatias, mesmo sem ser de fato preparadas para isso ou, quiçá, serem capazes de gerir as próprias vidas. Aliás, também já foi inventado o político cafona que se denomina “gestor" e antipolítico. Idiossincrasias diversas, todas tão sintomáticas quanto a sociedade que as produz. 

Considero, no entanto, que seja possível convir que há uma necessidade generalizada de ajuda. Pessoas dos mais diferentes estratos sociais, com jornadas de vida completamente díspares, às vezes com muitos privilégios e outras com escassez total deles: em nosso tempo, pessoas precisam de ajuda.

Lamento profundamente quando gente de toda espécie tenta apropriar-se de um fazer profissional seríssimo e que demanda anos de estudo, querendo vender sua expertise em coisa alguma para iludir e explorar financeiramente pessoas que estão realmente precisando de atenção. Admito, pode até ser que muitos vendam-se como conselheiros no intuito de colaborar de algum modo, mas não deixa de ser uma forma de exploração capitalista de um sintoma que precisa de cuidado terapêutico, não de frases de efeito.

Sou obstinado defensor da psicoterapia. O psicólogo, o psicanalista, ou, em alguns casos, o psiquiatra, são os legítimos profissionais diplomados na dificílima tarefa de ajudar o paciente a conquistar clareza psíquica e equilíbrio emocional na sua pessoal e intransferível experiência de existir.

Muitas vezes, a psicoterapia é dolorosa e parece mais confundir do que esclarecer, mas é o processo o que importa, não o ponto de chegada, sequer há um ponto de chegada, mas há um caminho sendo trilhado – quanto mais apropriação de si, consciência e autonomia se conquista nele, mais legítima e sustentada se torna a experiência da própria vida e da própria subjetividade. 

Tomo altas porradas na minha terapia e nunca achei que seria diferente. No processo, eu sou ator e juiz, criança chorona e mestre paciente, rapaz ingênuo e intelectual arguto, protagonista e anti-herói, mocinho e vilão de mim mesmo, dono da festa e espectador atento, mas todos esses e os muitos outros de mim são acompanhados de perto por alguém que estudou para isso, investida da competência de me lembrar que, mesmo quando dói, a gente sempre pode amar e respeitar um pouquinho mais a si e aos outros. 

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