A senhora na sala
Um dos conhecimentos mais interessantes que adquiri na Letras foi a noção de unidade linguística. Confesso: os estudos de língua e linguística nunca foram meu forte. Em essência: unidade linguística é aquilo que nos faz reconhecer um dado idioma como tal e sermos capazes de nos comunicarmos nele.
Qual não foi minha surpresa quando entendi que um dos fatores que mantém unidade linguística em um país, sobretudo em desenvolvimento, como o nosso, é a televisão.
Esta semana, a senhora na sala completou setenta anos de existência no Brasil. Sempre gostei TV, de algum modo, ela quem dava certo dinamismo ao mundo, certa dose de sonho, e uma não sei que louca vontade de ser alguém especial e importante, como aqueles que apareciam na tela.
O universo da telinha sempre foi uma espécie de desejo inalcançável para aqueles que viviam longe das metrópoles do mundo. Herdo dela a vontade de estar à frente de um público e ter algo a dizer, como também a fantasia de viver vidas diferentes da minha sem deixar de ser eu.
Demorei para compreender que nada é de fato espontâneo na televisão e que o prazer da presença física de um público é inestimável. Fui adquirindo orgulho da produção televisa brasileira ao amadurecer e reconhecer o complexo jogo de espelhos que há entre o Brasil que está na tela e o Brasil que se vê na tela.
O conteúdo televiso, por ser gratuito, cria memória coletiva e sentimento de nacionalidade. Hoje, com tantas possibilidades de acesso a programas do mundo todo, ainda tenho gosto particular pela televisão brasileira. Há nesses produtos, mesmo quando de formatos importados, certo ar de brasilidade que me fascina. Nada me encanta e emociona mais do que telenovela. Além da imensa qualidade de produção que foram adquirindo ao longo dos anos, me deleita ver artistas e histórias tão representativas do país que somos serem apresentadas todos os dias na telinha. Telenovela é neta legítima dos folhetins literários do século XIX e, como tal, não tem a menor obrigação com a realidade, o que as torna ainda mais saborosas.
Poucas coisas me emocionam mais que vinhetas de televisão. A presença marcante da passagem do tempo na TV lembra-nos a todos que tudo muda. Atualmente, a televisão virou "transmissão sob demanda" nas palmas de quase todo mundo, mas ainda será, por décadas, aquela senhora moderna na sala com potencial de reunir a todos e ter boas histórias para contar.
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