Orgulho 2021
Pelo segundo ano consecutivo, centenas de milhares de pessoas não puderam ir à Avenida Paulista celebrar a escolha que fizeram de viver suas sexualidades tal e qual sua própria condição, mesmo que isso signifique certa afronta social e, principalmente, uma dose nada desprezível de conflitos pessoais, familiares e psicológicos.
Embora pareça, há alguns anos, que a não-heterossexualidade como que entrou na moda e que vivenciá-la seja uma espécie de recreação da sexualidade, diariamente, pessoas sofrem todo tipo de violência em suas casas, nos seus empregos e nas ruas.
Muitas são as problematizações possíveis dentro do contigente populacional LGBTQIA+, não só no que diz respeito à complexa representação dos distintos e diversificados membros, como também nas possibilidades de viverem suas sexualidades em suas realidades sociais. Ainda que a aceitação da homossexualidade tenha aumentado consideravelmente nas últimas décadas, é fácil perceber que a sociedade moldou um tipo de homossexual mais palatável ao patriarcalismo. No limite, é conveniente incluir o homem gay masculinizado, branco, com ensino superior completo e emprego fixo, no rol de consumidores de múltiplos produtos e serviços, assim como a seu marido, também masculinizado, branco, com ensino superior completo e emprego fixo. O capitalismo é pansexual, tem até consumidores gays.
São Paulo, a capital econômica do país, não pode receber, no último domingo, a 25ª Parada do Orgulho LGBTQIA+. O evento virou uma grande festa, é notório, sua origem militante, paradoxalmente, acabou ofuscada pela proporção que a efeméride tomou. Entretanto, é exatamente nesse ponto que está sua dobra: a Parada Gay é uma oportunidade anual de pessoas diversas celebrarem o leque de suas sexualidades. A não-heterossexualidade é muito mais do que o gay famoso da televisão, a cantora de música popular, o casal aprazível de vizinhos ou a drag bem sucedida. Sua comunidade deve ir além da diva pop, do político prestimoso ou da tela do Instagram.
A comunidade LGBTQIA+ precisa de políticas públicas que reconheçam e legitimem sua verdadeira realidade, nas praças, parques, museus, praias, condomínios, mas, sobretudo, nas ruas, esquinas, periferias e favelas. Precisa ir além! Precisa ser reconhecida como direito humano inalienável de amar e fazer sexo com quem se quiser. E de orgulhar-se disso, diante de todos, a qualquer hora ou lugar.
Segundo pesquisa do coletivo #VoteLGBT, em parceria com a Unicamp e a UFMG, a maior preocupação da comunidade em tempos de pandemia é lidar com problemas de saúde mental. A realização da Parada talvez ajudasse muitas dessas pessoas a sentirem-se mais reconhecidas e participantes da vida social, sem medo e cheias de esperanças por tempos melhores.
De fato, não há muito do que orgulhar-se no Brasil recente e fazer festa tornou-se um afrontoso absurdo. Contudo, sejamos zelosos pelas pessoas LGBTQIA+ que nos cercam e deixemos elas serem quem são, sem insegurança. Ano que vem, você ficará contente em saber que elas estão felizes, orgulhosas na Paulista.
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