Curadoria de inutilidades

Nada é mais elucidativo de saúde mental do que a observação de como estamos percebendo a passagem do tempo. Do ponto de vista natural, o ritmo do tempo é sempre o mesmo. É verdade também que o tempo oscila, as estações do ano, por exemplo, alteram radicalmente a duração do dia e da noite. Ou seja, o tempo é constante, mas muda. O ritmo do tempo é sempre o mesmo, mas nossa percepção sobre ele não o é.

Exortados a ficar mais em casa, fico me perguntando o que as pessoas fazem com o tempo. Ainda que parcela significativa da população continue a sair regularmente, estamos todos permanecendo mais em nossas residências do que costumávamos. E o que se faz com tempo?

Em São Paulo, sobretudo durante os dias de isolamento absoluto por conta da Covid, meu tempo transcorreu bem lentamente. Os dias se arrastaram, e eu os preenchi como pude: leitura, meditação, séries de tv, yoga e videogame. O ocupei, mas não o preenchi. Em São Roque, de volta às aulas on-line, as atividades são basicamente as mesmas, e ainda consigo acrescentar alguns momentos em família e um preciosíssimo tempo encarando o tempo: as árvores, as aves, o clima, os parentes e as inescapáveis histórias de gente que conheci quando criança preenchem os dias.

Vivi – o velho tempo me diz. 

Amadureci? – Pergunto-me eu mesmo a mim.

O tempo não é uma perda, é um ganho. Revela o que está na essência dos sentimentos e alimenta esperanças quanto a um futuro melhor. Também evidencia erros, pessoais e coletivos, sobre como estamos construindo nossa contemporaneidade, sobre como estamos tratando as pessoas e sobre como estamos nos permitindo sentir e viver bons momentos mantendo – ou não – responsabilidade afetiva.

Do tempo que passa, quero poder observá-lo, fazer minha parte e aprender com ele. Do tempo que vem, espero realizações, saúde, alguns desafios, justiça social e a constância de amores que permanecem.

Se é preciso conter a socialização para cuidarmos uns dos outros, que nossos dias sejam vividos com aquilo que vale a pena. Quiçá devêssemos fazer uma espécie de curadoria de nossas inutilidades, para que esses tempos difíceis tenham a leveza da banalidade e a consciência do quanto somos todos partes da solução.

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