Sob controle

Na quinzena mais complicada da pandemia até aqui, eu entrei para as estatísticas como um dos infectados por SARS-CoV-2, o novo Coronavírus. De imediato, todo tipo de pergunta passa pela cabeça. Pouco a pouco, uma compreensão ainda mais ampliada do tamanho do buraco em que estamos metidos. 

Depois de ter permanecido por dez meses no sítio em São Roque, eu precisei voltar a circular pela capital paulista desde o início de janeiro por uma série de questões profissionais. E disso, a decorrência da pergunta que mais me fizeram: onde eu me infectei? É impossível saber. Fato é que, estando na capital, eu precisei circular pela cidade; usei metrô, ônibus e carro de aplicativo, encontrei amigas muito íntimas duas ou três vezes, recebi a diarista, fui algumas vezes à escola, ao mercado e à farmácia, tive de almoçar em restaurantes, e estive em São Roque duas vezes, enfim, operacionalizei minha vida. Ou seja, não tem como saber. O máximo que se consegue é ter uma vaga suspeita dos prováveis dias em que a infecção pode ter ocorrido, mas mesmo isso é incerto e eu desencanei completamente de querer saber. No fim das contas, sequer importa. 

O segundo ponto, extremamente importante, é o que efetivamente me levou ao pronto socorro. Sábado, 20 de fevereiro, eu fui acometido por uma diarreia absurda, que havia começado com um leve mal-estar no fim da sexta. Eu notei que havia algo fora do padrão naquela crise digestiva, mas desconfiei do delivery e ficou por isso mesmo. Tive uma madrugada péssima e os sintomas se repetiram ao longo de todo o domingo. Forcei um vômito e estava com febre. Foi quando tomei a decisão.

No hospital, uma instituição privada na Avenida Paulista, desconfiaram de Covid logo na triagem. Tomei soro, fiz teste PCR (o do cotonete) e voltei para casa com a possibilidade de Covid praticamente descartada, porque eu não havia desenvolvido nenhum sintoma respiratório, nada. Não tive tosse, espirro, falta de ar, não perdi paladar ou olfato. Tive apenas diarreia, descomunal, mas apenas diarreia.

O resultado demora um pouco para sair e eu vivi outros três dias tenebrosos. Acabei voltando ao hospital para tomar soro novamente e cheguei a ser convidado para entrar na fila de espera por uma internação. Na fila de espera! De um hospital privado na Avenida Paulista!

Consegui entrar em contato com uma médica que me acompanha e, com o resultado em mãos, decidimos que era viável eu voltar para casa tomar probióticos e acompanhar de perto o índice de oxigenação do meu sangue, com um oxímetro simples vendido em farmácia. Confesso que me assustei com a possibilidade de poder vir a piorar, mas voltar para casa era o ideal naquele momento. 

Quando li o exame atentamente entendi o que me estava acontecendo. O resultado dizia: "infecção por coronavírus em local não determinado”. Ou seja, eu não tive uma infecção pulmonar. A Covid não necessariamente se manifesta como uma doença respiratória, o que amplia o leque e assusta ainda mais. 

Tirei licença da escola e comecei a contar os dias. Quinze. Nesse intervalo, o Brasil descobriu que o fundo do poço ainda está longe. Se um hospital da rede privada numa das áreas mais nobres do país estava com fila para internação, o que se pode esperar de unidades públicas pelo interior do país? O que se pode esperar de uma política de extermínio? O que se pode esperar de um país que perdeu a capacidade, a competência  e o interesse de vacinar seus cidadãos?

Pessoas estão morrendo. E nós somos todos cúmplices desse extermínio. Por sorte, fé, predisposição genética ou pela proteção do afeto de familiares, amigos, colegas, alunos, amores, que eu tanto recebi nesses dias, minha Covid não passou de uma diarreia terrível, mas isso não me imuniza, não me tira o risco de uma nova infecção, não me isenta da responsabilidade de zelar pela vida dos que me cercam. Não me livra das máscaras, não me libera pra dar rolé, não me torna vitorioso em um país no qual quase trezentas mil pessoas já morreram por algo que poderia estar sob controle.

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