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Mostrando postagens de agosto, 2020

O futuro imediato

Vez ou outra, situações dão a impressão de que tudo está estagnado. Os longos meses de pandemia continuam arrastando-se, enquanto muitos retomam as rotinas normais, por vontade ou obrigação, e outros tantos seguem confinados em suas casas, como um ato de resistência. Dia desses, nas videoaulas, alunos perguntaram o que eu achava que devesse ser feito com relação ao possível retorno à convivência escolar. Em nosso caso, classe média paulistana, fato é que as aulas online funcionam  – c onstatei como estudante, espero por isso como professor – e, sendo assim, é viável que caiba a nós estarmos fora de circulação. É bem menos rico do que o cotidiano escolar e a incerteza da durabilidade alimenta esperanças e angústias, mas é o correto a ser feito.  Fora desse recorte, preocupam as enormes perdas educacionais e suas consequências nas próximas décadas. A conta é alta. Alunos estão pagando hoje, a sociedade pagará amanhã. De todo modo, não cabe ao educador fugir ao posicionamento. ...

Depois do prazer

Estes meses todos vivendo distante de minha rotina cotidiana têm-me feito pensar bastante sobre o quero, como quero e quanto quero; mais ainda, sobre como satisfazer os desejos e expectativas que prevalecerão após esses mais outros tantos meses que ainda lidaremos com o distanciamento social.  Algo é fato, longe do frenesi, noto com muito mais facilidade as demandas da minha subjetividade. Não porque haja menos diversificação entre elas, mas sobretudo porque há mais tempo para encará-las de modo contemplativo. Há evidente relação entre agitação e a impossibilidade de olhar com calma para os desejos. Mantenho o processo de psicoterapia durante o distanciamento. Cada vez mais, acho fundamental para a saúde ter um acompanhamento psicológico ou psicanalítico. A vida é múltipla, variável, instigante, e as demandas dos desejos são intensas, desconcertantes e muito reais. Perceber os desejos sem estar dentro do turbilhão dos acontecimentos tem sido de fundamental importância para que, ao ...

O indizível

Cresci numa cidade do interior, próxima à capital, mas com ares de província. Fui ensinado a ser devoto de São Roque, o santo padroeiro. Sempre perguntamos entre nós como se explica tal devoção para alguém que não é da cidade. A história e a lenda contam que o vilarejo foi fundado em 16 de agosto de 1657, desde então, os residentes celebram uma missa em homenagem ao jovem francês que abandonou a nobreza e lavava feridas dos atingidos pela peste bubônica. Nos anos 1990, herdei uma festa grande. Sou capaz de ouvir na mente a voz do primeiro bispo destas paragens ecoando, bonachão e feliz, na praça, aquilo que via de seu lugar: o testemunho de fé daquela gente em “Roque, o peregrino do amor”. É assim que sempre tenho São Roque em meu coração, como exemplo de alguém que peregrina, que segue adiante, mesmo na adversidade, levando o testemunho do amor consigo.  Adolescente e jovem adulto, me envolvi em corpo, alma e voluntariado com a paróquia e na festa de São Roque. Guardo enormes memó...

Quebra de silêncio

As rotinas de todos foram alteradas pela pandemia de coronavírus e em decorrência do distanciamento social, não importando opinião ou lado político que se manifestasse a esse respeito. Prestes a completar cinco meses na casa da minha família e com o Brasil tendo ultrapassado mais de cem mil mortos por Covid-19, pergunto-me o que as pessoas fizeram nesse período. A rigor, conversei com uma quantidade relativamente pequena de pessoas ao longo destes meses, ao menos se considerarmos as múltiplas possibilidades de comunicação que nos cercam atualmente. Indiretamente, alcancei uma quantidade grande de pessoas, é verdade, sejam pelas videoaulas ou por postagens regulares em redes sociais – o que não é exatamente a mesma coisa de ter uma boa conversa com alguém que você conhece e ama, ainda que seja por telas. O que estou querendo dizer é: com toda a tecnologia de comunicação já desenvolvida, pode ser que, ironicamente, estejamos nos comunicando menos e pior. Decidido a levar a sério o dever ...

Não vale como pedido de desculpas

Todo mundo tem preconceitos. É uma dura afirmativa, mas é honesta. Todos, do mais reacionário ao mais libertino, temos preconceitos. Alguns são moldados pela estrutura social, outros são herdados de nossas famílias e ainda alguns vão sendo construídos por nós mesmos ao longo da vida. De tão evidente, chega a ser ridículo ter que afirmar o óbvio: precisamos lutar contra qualquer forma de preconceito, a todo instante. A incapacidade de acolher diferenças, e de respeitá-las, traumatiza, magoa e até mata. Quando adolescente, fui a algumas consultas de endocrinologia e tenho memória da médica explicando que não querer comer alguns alimentos era um “pré-conceito”, uma ideia pré concebida sobre algo que eu ainda nem sabia de que se tratava por não ter feito a experiência empírica de experimentar. O raciocínio é válido para tudo. Se não apenas para o ato de experimentar, certamente para a abertura de pensamento a fim de conhecer e reconhecer outras formas de existências. Trata-se de saber que ...