Depois do prazer
Estes meses todos vivendo distante de minha rotina cotidiana têm-me feito pensar bastante sobre o quero, como quero e quanto quero; mais ainda, sobre como satisfazer os desejos e expectativas que prevalecerão após esses mais outros tantos meses que ainda lidaremos com o distanciamento social.
Algo é fato, longe do frenesi, noto com muito mais facilidade as demandas da minha subjetividade. Não porque haja menos diversificação entre elas, mas sobretudo porque há mais tempo para encará-las de modo contemplativo. Há evidente relação entre agitação e a impossibilidade de olhar com calma para os desejos.
Mantenho o processo de psicoterapia durante o distanciamento. Cada vez mais, acho fundamental para a saúde ter um acompanhamento psicológico ou psicanalítico. A vida é múltipla, variável, instigante, e as demandas dos desejos são intensas, desconcertantes e muito reais. Perceber os desejos sem estar dentro do turbilhão dos acontecimentos tem sido de fundamental importância para que, ao fim de tudo isto, eu possa ter a chance de olhar com menos cobrança para o correr dos dias.
A verdade é: nunca pararemos de desejar. Nada do que se tenha, do que se faça ou do que se realize é capaz de suprir a dinâmica do desejo. Isso é muito perturbador, afinal de contas, o vórtice das vontades é completamente capaz de tragar-nos para um fluxo sem fim de frustrações, irritabilidade, sofrimento.
As práticas de yoga e meditação preconizam que é exequível ouvir os desejos sem necessariamente atendê-los – o que não significa que eles não estejam lá e que não sejam intensos –; que é possível acolhê-los, compreendê-los, aferir a viabilidade de eventualmente realizá-los e simplesmente deixá-los partir, ainda que seja bastante difícil.
Tenho analisado atentamente os meus desejos. Vários exigem a coragem de continuar observando minha subjetividade, outros poderiam causar significativas mudanças em minha jornada, alguns acentuam sérias dúvidas, e ainda há aqueles que dependem diretamente da confluência dos desejos de outros.
Desejo demanda, é certo. Demanda escolha, responsabilidade, respeito, aceitação. Desejar é do corpo, é da alma, é da psique. Tenho intuído que de fato haja algo para além do princípio do prazer. Depois de muita porrada, é para lá que minha subjetividade tem apontado.
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