Quebra de silêncio

As rotinas de todos foram alteradas pela pandemia de coronavírus e em decorrência do distanciamento social, não importando opinião ou lado político que se manifestasse a esse respeito. Prestes a completar cinco meses na casa da minha família e com o Brasil tendo ultrapassado mais de cem mil mortos por Covid-19, pergunto-me o que as pessoas fizeram nesse período.

A rigor, conversei com uma quantidade relativamente pequena de pessoas ao longo destes meses, ao menos se considerarmos as múltiplas possibilidades de comunicação que nos cercam atualmente. Indiretamente, alcancei uma quantidade grande de pessoas, é verdade, sejam pelas videoaulas ou por postagens regulares em redes sociais – o que não é exatamente a mesma coisa de ter uma boa conversa com alguém que você conhece e ama, ainda que seja por telas. O que estou querendo dizer é: com toda a tecnologia de comunicação já desenvolvida, pode ser que, ironicamente, estejamos nos comunicando menos e pior.

Decidido a levar a sério o dever de não sair de casa e de não encontrar ninguém pessoalmente, a necessidade de marcar hora para conversar por videochamada fez-me perceber a riqueza da disponibilidade de conversar. Como, de maneira geral, nossos dias são de muito ruído, encontrar uma interlocução plena, relevante, envolvente e de interessantes mútuos tem se tornado raridade. 

Sempre fui de falar fácil, mas os dias de distanciamento me impulsionaram a ser um pouco mais seletivo na escolha de quais diálogos eu considerava valer a pena ter. Talvez, o recolhimento e introspecção causados pela pandemia, o medo de ser atingido por ela, as incertezas quanto ao futuro econômico e até a ausência física das pessoas que rodeiam meu cotidiano tenham proporcionado-me adesão um pouco maior ao silêncio contemplativo. 

O ruído está retornando. É inegável que as rotinas das cidades têm cada vez mais se aproximado do que eram antes. Empresários, políticos e trabalhadores vêm demonstrando reiterativamente o desejo e a necessidade de retomada econômica. Breve, as experiências de recolhimento e desaceleração tornar-se-ão memória de um tempo ruim.

Que a ausência de silêncio seja motivo de festa e não o eco da indiferença. Às mais de cem mil famílias brasileiras enlutadas pela Covid-19, que o berro de dor transforme-se em grito de resiliência.

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