Não vale como pedido de desculpas

Todo mundo tem preconceitos. É uma dura afirmativa, mas é honesta. Todos, do mais reacionário ao mais libertino, temos preconceitos. Alguns são moldados pela estrutura social, outros são herdados de nossas famílias e ainda alguns vão sendo construídos por nós mesmos ao longo da vida.

De tão evidente, chega a ser ridículo ter que afirmar o óbvio: precisamos lutar contra qualquer forma de preconceito, a todo instante. A incapacidade de acolher diferenças, e de respeitá-las, traumatiza, magoa e até mata.

Quando adolescente, fui a algumas consultas de endocrinologia e tenho memória da médica explicando que não querer comer alguns alimentos era um “pré-conceito”, uma ideia pré concebida sobre algo que eu ainda nem sabia de que se tratava por não ter feito a experiência empírica de experimentar.

O raciocínio é válido para tudo. Se não apenas para o ato de experimentar, certamente para a abertura de pensamento a fim de conhecer e reconhecer outras formas de existências. Trata-se de saber que existe e reconhecer que exista algo que seja diferente de mim. Ou seja, validar todas as formas de alteridades e de diferenças que dizem respeito ao “não eu”, que dizem respeito ao outro.

Estar disponível para permitir que o pensamento seja maleável a outras formas de vida é fundamental. Policiar os próprios preconceitos é a regra de ouro para uma humanidade melhor e menos opressora.

Se não bastassem todas as intolerâncias vindas da estrutura dominante, é ainda mais perverso e triste quando pessoas que são parte de alguma minoria também expressam preconceito, às vezes, dentro de sua própria comunidade. Mulheres machistas, gays homofóbicos e negros racistas, por exemplo, estão por toda a parte. 

É sabido que o leque da comunidade LGBTQIA+ é tão amplo que se constatam, costumeiramente, preconceitos múltiplos. “Gay macho sigiloso” e “não curto afeminados” são dois dos exemplos mais comuns.

Dia desses, conversei com um amigo sobre transfobia. Sem querer, acabei percebendo uma dose grande de incompreensão e quiçá preconceito da minha parte a respeito de pessoas trans. Por não ser capaz de enxergar transfobia em um famoso programa de televisão do nicho LGBTQIA+, sem querer, acabei chateando uma pessoa querida.

Refleti, pedi desculpas, mas não sei se isso basta. Talvez não, o que é uma pena. O que fica é a confirmação de que se alguma minoria não diz respeito a você, escute o que o outro tem a dizer. As questões e demandas das pessoas não são vitimismo e merecem ser legitimadas. Não vale como pedido de desculpas, valerá como aprendizado. 

Comentários

Unknown disse…
Suas palavras trazem tanta sabedoria, como sempre. Ajudam a ter uma perspectiva otimista, mesmo em tempos tão difíceis. Que elas sirvam de gatilho para transgredir todo preconceito (im)posto pela sociedade... que as pessoas entendam: trans não são objetos de dúvidas, que isso é inconveniente, uma minoria que já é tão hostilizada e criminalizada só busca respeito!
Espero que algum dia possamos ser livres para ser quem somos e amar quem queremos.

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