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Mostrando postagens de setembro, 2020

Sintomática

A sugestão de que se olhe para dentro de si é das tarefas mais repetidas e alardeadas em inúmeras opções de autoajuda disponíveis no mercado, de uns tempos para cá, inventaram até uma bizarrice de nome cafona anglófono para qualquer um que se autodenomine capaz de orientar os outros a seguirem suas vidas.  De fato, com a ascensão de tantas possibilidades de existência e a crise da subjetividade cada vez mais incisiva, não é de se admirar que centenas de pessoas queiram tirar seu quinhão das nossas psicopatias, mesmo sem ser de fato preparadas para isso ou, quiçá, serem capazes de gerir as próprias vidas. Aliás, também já foi inventado o político cafona que se denomina “gestor" e antipolítico. Idiossincrasias diversas, todas tão sintomáticas quanto a sociedade que as produz.  Considero, no entanto, que seja possível convir que há uma necessidade generalizada de ajuda. Pessoas dos mais diferentes estratos sociais, com jornadas de vida completamente díspares, às vezes com m...

A senhora na sala

Um dos conhecimentos mais interessantes que adquiri na Letras foi a noção de unidade linguística. Confesso: os estudos de língua e linguística nunca foram meu forte. Em essência: unidade linguística é aquilo que nos faz reconhecer um dado idioma como tal e sermos capazes de nos comunicarmos nele. Qual não foi minha surpresa quando entendi que um dos fatores que mantém unidade linguística em um país, sobretudo em desenvolvimento, como o nosso, é a televisão. Esta semana, a senhora na sala completou setenta anos de existência no Brasil. Sempre gostei TV, de algum modo, ela quem dava certo dinamismo ao mundo, certa dose de sonho, e uma não sei que louca vontade de ser alguém especial e importante, como aqueles que apareciam na tela. O universo da telinha sempre foi uma espécie de desejo inalcançável para aqueles que viviam longe das metrópoles do mundo. Herdo dela a vontade de estar à frente de um público e ter algo a dizer, como também a fantasia de viver vidas di...

Autonomia

Pisei na rua pela primeira vez para algo que não fosse a farmácia. Até então, saí de casa menos de dez vezes nessas vinte e seis semanas que estou em São Roque. Elegi um rolê à papelaria, por incrível que pareça, das atividades banais que mais sinto falta. Fiquei pensando sobre isso: sobre o quanto as atividades mais comuns causam uma sensação gigantesca de independência, por mais que tendamos a considerar que grandes decisões ou mudanças o fariam. Eu queria algo muito simples: tirar cópias dos textos que pretendo estudar nas próximas semanas, algo que fazia rotineiramente nos meus dias pré-corona e que ganha gosto de identidade agora. É tolo, eu sei. No fim, nem ficou como eu queria e, admito, já estar adaptado às versões virtuais desses textos, mas papel é papel, sinto gratidão por tudo o que já foi registrado neles, nos que li e rabisquei e nos que não li. Andam querendo taxar o livro. Pobre camarada. Tantas grandes fortunas, lanchas e heranças para serem ...

As pontas da vida

     O tempo é implacável, qualquer que seja a circunstância. A indiferença de seu transcorrer transtorna a qualquer um com sua superioridade intransigente e humilhante. Nada se pode contra o tempo, ele quem subjuga a todos nós.      Por outro lado, é reconfortante saber que ao menos isso é certo: o tempo sempre passa, para o bem ou para mal.      Há uma única realidade, contudo, contra a qual o tempo pouco pode: a memória. Carlos Drummond de Andrade, o grande poeta, cantou em verso e reverso a grandeza da memória. Ando às voltas com ela. Pode ser que as semanas transcorridas em minha terra natal tenham avivado lembranças antes relegadas a cantos menos óbvios da minha psique; pode ser que a distância da agitação urbana causem efeito semelhante; ou ainda que a terapia esteja chegando a recantos que não estava acessando antes da pandemia. Fato é que memórias ganham novas perspectivas anos depois e redimensionam o agora quando correlacionadas ...