Autonomia
Pisei na rua pela primeira vez para algo que não fosse a farmácia. Até então, saí de casa menos de dez vezes nessas vinte e seis semanas que estou em São Roque. Elegi um rolê à papelaria, por incrível que pareça, das atividades banais que mais sinto falta.
Fiquei pensando sobre isso: sobre o quanto as atividades mais comuns causam uma sensação gigantesca de independência, por mais que tendamos a considerar que grandes decisões ou mudanças o fariam.
Eu queria algo muito simples: tirar cópias dos textos que pretendo estudar nas próximas semanas, algo que fazia rotineiramente nos meus dias pré-corona e que ganha gosto de identidade agora. É tolo, eu sei.
No fim, nem ficou como eu queria e, admito, já estar adaptado às versões virtuais desses textos, mas papel é papel, sinto gratidão por tudo o que já foi registrado neles, nos que li e rabisquei e nos que não li.
Andam querendo taxar o livro. Pobre camarada. Tantas grandes fortunas, lanchas e heranças para serem taxadas, resolvem taxar justo esse constante companheiro. Seria maravilhoso se as pessoas relembrassem que livros são legais e o quanto são capazes de garantir amadurecimento aos leitores.
Aliás, serei eterno defensor da ideia de que ler bons livros constrói autonomia intelectual. Parece excentricidade, mas cada vez me convenço mais de que estamos ficando rasos de pensamento, de sentimento e de maturidade emocional. Culpei muitas vezes as redes virtuais por nossa patologia social de ódio e indiferença, mas venho pensando que talvez nos faltem livros. Por mais que seja difícil encontrar concentração de qualidade com o bombardeio eletrônico que nos cerca, algumas horas semanais dedicadas à leitura de um bom livro organizariam as ideias e acalmariam os corações.
Fiz um bate volta na papelaria da cidade para resgatar um ingênuo costume rotineiro. Minha intuição, antecipada a mim, trouxe, há seis meses, uma mala de viagem forrada de livros, e tantos outros chegaram desde então. A liberdade que eu buscava estava em casa o tempo todo.
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