As pontas da vida

    O tempo é implacável, qualquer que seja a circunstância. A indiferença de seu transcorrer transtorna a qualquer um com sua superioridade intransigente e humilhante. Nada se pode contra o tempo, ele quem subjuga a todos nós.

    Por outro lado, é reconfortante saber que ao menos isso é certo: o tempo sempre passa, para o bem ou para mal.

    Há uma única realidade, contudo, contra a qual o tempo pouco pode: a memória. Carlos Drummond de Andrade, o grande poeta, cantou em verso e reverso a grandeza da memória. Ando às voltas com ela. Pode ser que as semanas transcorridas em minha terra natal tenham avivado lembranças antes relegadas a cantos menos óbvios da minha psique; pode ser que a distância da agitação urbana causem efeito semelhante; ou ainda que a terapia esteja chegando a recantos que não estava acessando antes da pandemia. Fato é que memórias ganham novas perspectivas anos depois e redimensionam o agora quando correlacionadas com circunstâncias do presente. 

    Memória é uma construção narrativa sobre a qual temos uma dose maior de domínio do que nos parece à primeira vista. Eu, evidentemente, jamais imaginaria poder passar tantos dias seguidos na minha terra sem que isso significasse uma calamidade pública. Esse tempo todo trouxe recordações de vivências que se esclarecem hoje como não se esclareceriam quando foram vividas. 

    Penso que quando Dom Casmurro quer "atar as duas pontas da vida", ele queira dizer: dar uma certa ordem de sentido entre o presente e o passado, uma concatenação possível entre o sujeito que se foi e aquele que se é.

    Talvez nunca haja uma real relação entre os episódios de nossas vidas, mas o Serginho de hoje daria bons conselhos às pessoas do passado sobre o Serginho de então. Eu provavelmente sugeriria a elas para terem paciência e continuarem confiando, aquela aparente desordem de fato tinha uma lógica e ele/eu intuía estar agindo para que todos pudessem não ter receios de manifestar amor, fosse como fosse. O Serginho de antes talvez soubesse de alguma coisa que eu não sei mais. Podia ser apenas a prepotência de doses maiores de juventude do que possuo hoje, ou então a persistente incerteza de segurança que a fase adulta insiste em arrastar. Intuo que não faço ideia, mas a memória anda prestes a me revelar. 

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