Um outro caminho

Desarraigar velhos costumes e adquirir novos comportamentos talvez seja das mais óbvias e difíceis decisões da vida. Embora possa parecer trivial substituir uma prática tóxica por algo positivo ou simplesmente deixá-la de lado, não é bem assim.

Temos o péssimo hábito de acomodar aos nossos estilos de vida e aos vícios adquiridos ao longo de anos. Mudar uma realidade, mudar uma postura, mudar uma forma de pensar é extremamente desafiador e pode, inclusive, ser desgastante e criar burburinhos no entorno, mais fácil é deixar tudo como está.

Enquanto sociedade, estamos imersos em um importante ponto de virada, ou deveríamos estar, embora haja dúvidas se a crise da pandemia de coronavírus realmente trará uma nova postura humana para nossos dias. Provavelmente não, o que torna mais triste as mortes, que podem ter sido em vão. 

Aprender a mudar, melhor, tomar a decisão de transformar-se a partir de uma experiência deveria ser das mais simples e óbvias sabedorias humanas. Pena que não é assim, nossos comodismos e egoísmos sociais têm mostrado-se cada vez mais fortes quanto mais parece-nos evidente que igualdade e justiça são os legítimos remédios para uma sociedade doente e um planeta em aberto processo inflamatório. 

Contudo, se ficarmos esperando a mudança dos outros e da sociedade para que algo novo realmente aconteça, nunca nada acontecerá. Ficaremos todos paralisados, assistindo passivamente à degradação do gênero humano e ao esgotamento da Terra. 

Todo momento da vida é propício para uma mudança de atitude, uma nova forma de estar no mundo, um novo jeito de relacionar-se com as pessoas: mais responsável, comprometido, sadio e seguro. A vida é sempre um desafio, a vida é sempre um risco – “viver é muito perigoso”, como declara o Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. E se a vida é, de fato, desafiadora, perigosa e injusta, nada mais justo do que fazê-la ser o avesso do seu avesso, ou seja, nada mais justo do que fazê-la ser diferente. 

Mudar e permitir que a vida mude talvez sejam as chaves do segredo. Se toda transformação vem de dentro, uma mudança de atitude é o elemento primal para que uma nova realidade seja efetivamente possível e mais igualitária. Enquanto não formos capazes de mudar quem somos, não haverá mudanças significativas para as sociedades humanas na terra.

Há anos, sinto-me desafiado e perseguido pelo desejo de mudança, dos outros, é verdade, mas antes e sobretudo de mim mesmo. Sequer sei ao certo o que deveria ser mudado, mas tenho clareza de que deveria mudar, assim como reconheço realidades que gostaria que não mudassem ou até que permanecessem. 

O desejo de constância ou continuidade é legítimo, cria certa sensação de lastro com algo que reconhecemos, legitimamos ou simplesmente queríamos que ficasse. Mas a vida não é assim. Tudo na natureza nasce, cresce e um dia muda. A tecnização dos afazeres cotidianos, a reificação de sentimentos e pessoas, a superficialidade das relações têm-nos feito ofuscar a percepção de que tudo se transforma; a pretensão de previsibilidade e comodismo têm-nos empobrecido enquanto sujeitos e nos tornado injustos enquanto sociedade. O legítimo anelo de estabilidade e afeto e a descartabilidade perversa de pessoas e relações faz-nos perder a compreensão de que tudo flui.

Tenho me interessado por budismo, meditação e equilíbrio. Meus privilégios de quarentena e a decisão de respeitar o distanciamento social tornaram-se um tipo de jornada para dentro que vem causando reverberações. Que tragam mudanças de atitude! 

Comentários

Jackson disse…
Um outro caminho, sintetiza perfeitamente o estado de espírito de muitos adeptos a quarentena, e cada ponto levantado é de grande valor para o entendimento de como mudanças, por mais que ardilosas, podem ser compensadoras ao estado de espírito individual, e transcender em sociedade, vale ressaltar a “descartabilidade perversa” que vem se preenchendo nos nossos dias, o que agrava mais a necessidade de compor mudanças benevolentes com a humanidade. Leitura extremamente revigorante, e peço já de antemão perdão, se interpretei de maneira equivocada algum trecho, ou algum erro ortográfico que possa se revelar nesse meu singelo comentário, tenho muita admiração por esse seu dom linguístico, e obrigado por preencher essa tarde de domingo com uma reflexão tão atual e importante.

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