Nem para sempre, nem nunca mais
Se viajar no tempo fosse realmente possível, são alucinantes as hipóteses do que aconteceria à humanidade a partir dessa descoberta. Até aqui, é bem pouco provável que o tenhamos realizado num futuro próximo – e mesmo distante. Talvez, inclusive, a humanidade destrua-se antes de conseguir fazê-lo ou – pior – acabe com o planeta Terra antes disso. De todo modo, são inimagináveis as realizações e desgraças que executaríamos: muitas tragédias seriam evitáveis e muitas dores seriam provocadas se a reordenação do tempo viesse a ser corriqueira.
Ser humano é bicho passional, condicionado a um modelo de vida que leva a crer que pode dominar o universo, a natureza e o os outros. Viajar no tempo é tão tentador quanto conquistar a imortalidade, embora viajar no tempo pode não ser tão útil quanto pode parecer – assim como a imortalidade não o seria.
O controle absoluto sobre aquilo que acontece ou sobre o que se sente nas múltiplas vivências de uma vida poderia ser tão prejudicial e perigoso à existência humana quanto a bomba atômica. O bicho homem é arrogante e sabe demasiadamente que sabe demasiadamente, poderia fazer do controle do tempo sua perdição definitiva em um vórtice infinito de tentar subjugar o insubmissível.
Aliás, o imponderável é o que mais humaniza diante da potência do conhecimento: sempre haverá um limite, uma dobra, uma fresta que não prevista pelas ciências, pela literatura ou pela experiência. Isso é bom! Faz da humanidade sempre incompleta, sempre por fazer-se no processo do tempo e da história.
Grandes novidades não seriam evocadas ao gênero humano com o controle do tempo, giraria-se em torno de três velhos conhecidos: poder, amor e morte. O homem já tem muito poder diante da morte. Nunca será capaz de vencê-la, mas consegue causá-la e evitá-la de maneira espantosa. Sobre o amor o homem não tem poder algum, principalmente quanto àquele, gêmeo do instinto de sobrevivência: o homem não tem poder algum sobre o afeto e suas consequências. Está eternamente submetido ao que sente, nas mais diversas situações. O homem não é capaz de não sentir.
A rigor, animais são capazes de sentir, o que homem fez foi usar da razão para refinar as afetações, verbalizá-las e chamá-las de sentimentos, percebendo-lhes e evocando-lhes a todo instante. Ainda que o homem fosse capaz de viajar no tempo, continuaríamos – desesperadoramente – viajando pelos anos para tentar dar algum sentido ao que sentimos, alguma razão ao que não somos capazes de explicar, algum rumo ao que não se controla.
Se o homem fosse capaz de viajar pelo tempo, seriamos uma humanidade ainda mais incrível, mas não muito diferente. A série Dark, da Netflix, tem um jeito bem alemão de dizer aquilo que, de tão óbvio, parece velado: ainda que pudesse controlar o tempo, o homem jamais estaria livre de suas afetações.
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