Competência democrática
Se algo deva ser entendido a respeito das eleições estadunidenses deste ano é que voto importa. Para nós brasileiros, é até estranho observar que a maior democracia do mundo tenha um sistema eleitoral tão confuso. Nós, tupiniquins, enquanto sociedade, talvez não compreendamos, como eles, o valor pleno do sentido democrático. A deles é muito mais antiga que a nossa, muito mais. A nossa, tão jovem, ao menos soube organizar-se melhor.
Não faz muito tempo que usei destes mesmos canais para defender que eleição não é torcida, mas é irônico notar que ninguém vota centrado na racionalidade dos valores democráticos para o bem comum. Vota-se é no sangue mesmo, sangue no olho, na obsessão da torcida e na passionalidade de querer estar com a razão, custe a quem custar.
Os Estados Unidos pagaram caro nos últimos quatro anos por seu sistema eleitoral incompreensível, arrisco dizer, até para quem é de lá. De outra perspectiva, o nosso, tão melhor organizado, igualmente se dá ao luxo de nos legar o suprassumo da ignorância neofascista brasileira. Que fique claro, o nível de competência de um sistema eleitoral não garante a eficácia da democracia.
Trump é o pior dos mundos naquele que se considera o melhor dos países. Bolsonaro é o pior entre os piores no país que só chegou perto de sair da vira-latice nos anos Lula, a quem Sérgio Moro fez questão de colocar na cadeia para imiscuir-se no governo que ajudou a eleger no tapetão e agora pousa para fotos com o cafonésimo Luciano Huck e corteja João Dória, na esperança de ser aquilo que nunca foi: herói da nação.
Como se vê, falar dos outros é fácil, difícil é falar dos nossos. Ao menos a eleição ianque passa a impressão de ser um jogo bem jogado. A nossa, é de organização, lisura e competência exemplares; o problema é quem joga o jogo, seja do lado dos elegíveis ou dos eleitores. Nós, tão privados de educação e justiça social há tantos séculos, temos muito que amadurecer nossa jovem constituição cidadã.
De todo modo, a “maior democracia do mundo” elegeu Donald Trump, símbolo supremo da escória política moderna. Se bem que, dois anos depois, nós inventamos Jair Bolsonaro… sempre pode ser pior… daqui ou de lá. Ao menos Trump não se reelegeu, fique-nos a lição. Aliás, próximo domingo haverá o pleito municipal. Façamos como os americanos fizeram desta vez: participemos da eleição, é cada vez mais importante, e como eles, mostremos ao mundo que somos capazes de fazer a coisa certa desde já, ainda que tenhamos de esperar mais dois anos.
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