A morte do simbólico

A morte é algo sempre surpreendente e incompreensível, ao mesmo tempo que tão corriqueira e banal. Por uma série de razões ela é o grande mistério e o grande milagre da vida. Só é possível estar vivo, porque um dia se estará morto.

A humanidade nunca soube lidar bem com a morte: ao longo dos milênios tornamos um fato natural em algo do plano simbólico. Morrer é algo fisiológico, assim como temos de comer, beber, dormir, defecar ou urinar, um dia teremos de morrer. É o corpo e seu funcionamento, a natureza e suas regras. 

É possível que fôssemos outra humanidade se tivéssemos lidado de maneira diferente com a morte. Eu tendo a imaginar que o "bicho gente", milênios atrás, começa a virar humanidade quando passa a lidar com morte. Claro, a morte sempre existiu, mas suponho o homem compreendendo a morte como algo instransponível, sem volta e inevitável. Há muitas teorias, aliás, que dão o fato consumado da morte como a origem da ideia do sagrado, do transcendente, de Deus, enfim.

Então, as coisas se misturam. A morte existe. E a humanidade deu a ela o valor de sobrenatural e mistério que tem até hoje, de muitas formas, em todas as culturas. Eis o ponto mais importante: a morte nos dói tanto não porque seja desconhecida, mas porque parece nos tirar algo que não volta.

Por mais que seja desconcertante, há duas maneiras de lidar com ela: aceitá-la, como um processo natural e inevitável; e sofrê-la, com a consciência de que nos tira algo que não retorna. 

Com o tempo, a gente aprende a transformar aquilo que foi em memória, uma maneira de eternizar o que se perdeu. E, aqui, falo não só da morte factual, fisiológica, mas de tantas outras perdas que vão acontecendo na vida: o desligamento de um emprego, uma mudança de cidade, o término de um namoro. Pode ser que soframos até mais pela morte de algo simbólico do que pela morte natural. Porque a morte só é dolorosa quando aquilo que deixa de existir importava para quem perde ou quando não se estava pronto para ela. 

O Brasil lidou com muitas mortes este ano, para além daquelas que são triste marca de nosso cotidiano, causadas pela ignorância intolerante e pela irresponsabilidade, ainda tivemos as centenas de milhares da pandemia. Ontem, o irônico 2020 levou também o Louro José. É estranho como é possível sentirmos a perda de alguém que nem era exatamente real, mas a morte de Tom Veiga, o artista por trás do personagem, nos dá algo da dimensão da perda do simbólico. Ninguém conhecia o Tom, mas éramos todos um pouco íntimos da irreverência do papagaio, mesmo que há anos sequer assistíssemos ao Mais Você. O fim inesperado de um personagem de televisão há quase meio século no ar diz muito sobre imaginário nacional, cultura e perda. O Louro José deixa uma marca no simbólico à brasileira. Essa tristezinha que pode estar atingindo você agora provavelmente está atingindo a todos e ela fala muito de nosso desejo em manter aquilo que faz bem vivo e saudável: seja alguém, seja uma relação, uma referência cultural ou um boneco da televisão. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Orgulho 2021

Curadoria de inutilidades

Sintomática