Mais que importam
A atrocidade das imagens do último final de semana obriga-nos todos a profundas reflexões sobre o que estamos fazendo enquanto sociedade. Mais uma vez, uma vida de pessoa preta foi humilhada, tirada à base violência brutal e exposta em praça pública, com o requinte da exposição eterna e vertiginosa das mídias sociais. Se isso não é racismo, eu não sei mais o que é.
O transcorrer do tempo de fato atualiza meios, formas e gestos, mas, de maneira impressionante, as coisas não deixam muito de ser aquilo que têm sido há séculos. É difícil explicar o que seja "racismo estrutural", porque muitas pessoas não querem simplesmente admitir que exista, apesar de estar escancarado em não poucos contextos. Mas vamos lá, tentarei o feito: a ideia de atualização está presente em nossos cotidianos de maneira bastante recorrente. Já de algumas décadas se tem a noção de troca de um produto eletrônico por um mais moderno que faça as mesmas funções do anterior de maneira mais ágil, moderna e mais eficaz sem deixar de ser aquilo que sempre foi. Automóveis, televisores, geladeiras e celulares, por exemplo, lembram-nos disso o tempo todo. Uma SmartTv 4K de última geração com acesso a internet e comando de voz não deixa de ser aquilo que sempre foi: um televisor. Celulares, então, levam isso ao extremo, não só o aparelho, mas suas funções: as dezenas de atualizações semanais dos aplicativos podem até alterá-los, mas não os mudam em essência.
A terrível cena do supermercado, outra entre tantas, é aquilo que sempre foi: RACISMO. A colonização europeia do século XVI continuamente apostou na ideia de que pretos são inferiores a brancos e por isso mereciam ou podiam ou se justificaria serem escravizados nos rincões da América e do resto do mundo. O Brasil, aliás, foi dos países que manteve o regime escravocrata por mais tempo e que soma maior número de indivíduos escravizados ao longo de cerca de três séculos e meio. O racismo está na base do que somos enquanto país. De fato, a escravidão não existe mais como um dia fora, mas permanece, atualiza-se, encontra forma, manifestação e vazão em episódios como esse, no Carrefour em Porto Alegre. O escravagismo enquanto estrutura pode até não existir mais, porém, o racismo que lhe dava mote encontra novas formas de sobreviver. Uma SmarTV 4K ainda é um televisor. Um preto assassinado em um supermercado e exposto em praça pública ainda é vítima do racismo que outrora deu origem à escravização.
Certa vez um conhecido, rapaz preto, me convidou para um jantar. Lembro-me de estar um tanto quanto fascinado pela beleza e pela ancestralidade sentadas à minha frente na lanchonete. Eu ouvia suas vivências e não conseguia parar de pensar sobre a quantidade de lutas e dores de tantos antepassados pretos que conquistaram àquele rapaz a possibilidade de estar sentado comigo no restaurante. Senti orgulho do povo preto, senti orgulho de sua ancestralidade e me senti pequeno perante um povo tão digno e tão rico em humanidade. Vidas pretas não apenas importam, sem a força, a potência e a ancestralidade delas nem ao menos sei o que seria de nós.
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