O indizível
Cresci numa cidade do interior, próxima à capital, mas com ares de província. Fui ensinado a ser devoto de São Roque, o santo padroeiro. Sempre perguntamos entre nós como se explica tal devoção para alguém que não é da cidade. A história e a lenda contam que o vilarejo foi fundado em 16 de agosto de 1657, desde então, os residentes celebram uma missa em homenagem ao jovem francês que abandonou a nobreza e lavava feridas dos atingidos pela peste bubônica.
Nos anos 1990, herdei uma festa grande. Sou capaz de ouvir na mente a voz do primeiro bispo destas paragens ecoando, bonachão e feliz, na praça, aquilo que via de seu lugar: o testemunho de fé daquela gente em “Roque, o peregrino do amor”. É assim que sempre tenho São Roque em meu coração, como exemplo de alguém que peregrina, que segue adiante, mesmo na adversidade, levando o testemunho do amor consigo.
Adolescente e jovem adulto, me envolvi em corpo, alma e voluntariado com a paróquia e na festa de São Roque. Guardo enormes memórias que constituem muito do homem que me tornei. Era e é tudo tão intenso que até hoje vivem em meu espírito a potência do serviço que prestei com amigos e das lições de existência que aprendi.
Quando eu já era um dos muitos coordenadores do evento, envolvido até o tutano e sem saber dosar a magnitude dos meus sentimentos, cheio de dúvidas e incertezas, lembro de estar no adro da igreja, próximo dos membros do clero e dos organizadores daquele ano, agitado com a efervescência de acontecimentos fugazes e arrebatadores, olhar para a praça lotada de fiéis e compreender. Sim, compreender! Compreender que fé não se explica e que minha função ali era justamente essa: ajudar a proporcionar àquela gente que crê um instante de devoção e agradecimento a Deus, a São Roque ou àquilo que fosse que aquele acontecimento significasse para elas. Foi um divisor de águas. Desde então, nunca mais negligenciei a crença, fosse qual fosse. Entendi que a fé é importante por aquilo que é: celebração do mistério, do indizível, do que só a alma consegue traduzir.
Recordo a sensação de paz e de dever cumprido, do abraço de um amigo extremamente querido – com quem eu adorava estar e amava como a ninguém. Era maravilhoso fazer aquilo com ele, com eles, num momento tão decisivo de nossas formações como seres humanos.
Já adulto, em 2015, fui convidado por dois casais de amigos, que me conhecem desde criancinha, para estar novamente à frente de algumas das atividades mais importantes, principalmente das procissões e da Solenidade de São Roque. Foi único, senti como se um novo ciclo estivesse se iniciando em minha vida, de uma fé madura, ciente da sua trajetória e das pessoas que fazem parte dela.
Hoje é 16 de agosto, 2020 impossibilitou a realização da festa e das solenidades. São Roque zela por nós mesmo com a necessidade de manter a igreja fechada. Outra pandemia não parou sua intercessão pelos pobres, humildes e doentes. Peregrinemos no amor, a fé não esmorecerá.
Comentários
Que nesses tempos de pandemia, Deus continue nos enviando pães que alimentam nossa alma!