A desordem do dia
Certa vez, alunos me disseram que ouvem minha voz quando estão fazendo as provas dos vestibulares. Fiquei surpreso, grato, e nunca mais me esqueci. Aquilo ressoou em mim como uma declaração de amor, uma confirmação de que, dentro das condições estabelecidas, eu estava realizando bem o meu trabalho.
Sempre quis ser claro no que digo e – principalmente na sala de aula, – em como digo. Acredito ser parte da função: não basta conhecer amplamente o conteúdo a ser ministrado, é fundamental saber dizê-lo.
Quando da circunstância dessa revelação, ousei verificar em outras turmas, outros contextos, e a assertiva mostrou-se verdadeira e recorrente: alunos ouvem minha voz em suas mentes enquanto fazem as provas. Senti lisonja!
Lembro-me ter contado essa história a uma amiga, professora experiente, e ela ter sentenciado: “Os alunos têm uma relação espiritual com você.”. Achei assombroso. De algum modo, a consciência desse fato aumentava em muito minha responsabilidade para com os alunos.
Sala de aula é um ambiente múltiplo e vivaz no qual muitos elementos convergem: identidades, paixões, ideologias, origens. A totalidade de um sujeito está presente no fenômeno aula. Um professor na USP afirmava, com todas as letras, que aula é uma espécie de milagre, um encontro único de almas, que se encerra no tempo, mas perdura na subjetividade. O velho Pasta tinha razão em suas aulas de Romantismo.
Aliás, hodiernamente, concluído meu processo iniciático da docência, posso afirmar categoricamente a meus alunos – e aqui vai um segredo: não existe neutralidade na sala de aula, vocês e eu estamos lá por inteiro, com todo nosso ser, do jeitinho que podemos ser naquele momento. Não há fora do sujeito. Não há fora das relações.
O mundo ruiu para o universo escolar no último semestre: as desigualdades se escancaram, os sentidos se desnortearam, a grande mágica da sala de aula, que é o encontro entre pessoas em processo de formação e alguém disposto a orientá-los no processo, simplesmente se perdeu.
Sou parte de um contexto que me permite o privilégio do teletrabalho, mas sinto falta dos meus alunos; vê-los amadurecer, trocar olhares de cumplicidade, rir de bobagens, compartilhar tédio e cansaço. Enfim, participar da vida deles e poder dedicar parte da minha em incentivá-los a encarar o mundo com outras perspectivas, mais empáticas, arejadas, conscientes.
A pandemia represou parte importante do processo educacional. Admiro meus colegas, das mais discrepantes realidades, que têm feito tudo o que está a seus alcances para que as perdas sejam mínimas. Estamos todos ansiosos para termos o direito de retornar à sala de aula e afirmar aos nossos alunos que está tudo bem. Mas o retorno à educação parece cada vez mais distante quando a sociedade prioriza o encontrinho, a reuniãozinha, a festinha, a musculação na academia, o remédio sem eficácia, o chopp no bar, a indiferença. Educação, definitivamente, não é prioridade. Consciência de que é preciso ficar em casa mais um pouco para que centros hospitalares e institutos educacionais possam funcionar com segurança sanitária dentro de algumas semanas, é manifesto, não vale mais que o descaso que estamos testemunhando. O coronavírus evidenciou o comportamento diário que reproduz a mentalidade vigente do “e daí”: respeito pela vida e consideração pela relevância do fase escolar não estão na ordem do dia.
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