O Livro das Mutações
A China despertou meu interesse quando ouvi falar pela primeira vez do oráculo I Ching – o Livro das Mutações. Eu era bem novinho quando o li pela primeira vez, em uma edição bonita, toda esclarecedora, não só da prática oracular, como, principalmente, da filosofia que o embasa.
Em síntese, e tomando a liberdade de reduzir imensamente a grandeza do pensamento, o Livro das Mutações afirma que tudo muda. Melhor: que a lei da natureza é a mudança. Simples e legítimo, mas movimentou minha cabeça de pré-adolescente católico. O mais interessante foi que me aproximei do livro por seu caráter oracular; aos treze ou catorze anos, é realmente possível acreditar que você pode desvendar o futuro com alguns palitos ou moedas.
A rasteira na minha expectativa não foi pequena, mas o efeito foi melhor do que o esperado. O I Ching não projeta a mutação na dimensão transcendente, sim a reconhece no mundo natural. Trocando em miúdos, a mutação não é algo a se esperar da dimensão espiritual como um pedido ou desejo, mas uma percepção da própria lógica do mundo, de sua engrenagem sempre mutante: o dia vira noite, o inverno transforma-se em verão, o novo envelhece, o vivente morre. Ou seja, se tudo muda constantemente na materialidade do mundo, o mesmo se pode dizer sobre nós e nossa dimensão subjetiva.
Ao fim e ao cabo, o Livro das Mutações não tinha mistério algum para me revelar, tinha um empurrãozinho para que eu percebesse que a mudança é mesmo inevitável. Tudo muda, ora lentamente, ora de modo inesperado, ora um pouco mais dolorido, ora libertador – mas sempre muda. Sábio seria observar a mudança, calmamente, aceitando seu transcorrer.
Claro que não aprendi a lição assim tão facilmente, entretanto, permiti que ela ecoasse no meu pensamento. Desafio maior é querer ser agente da mudança e perceber que tudo tem seu tempo de nascimento, maturação e transformação. É uma lição tão simples quanto difícil.
Muito tem se falado da China. Nas últimas décadas, ela mesma promoveu mudanças radicais em sua infraestrutura e em sua história. O Brasil de hoje depende dela para tudo, apesar de promover xenofobia e viralatear às botas de Donald Trump. Torço pela China. Penso que ela seja plenamente capaz de oferecer diversas soluções ao nosso tempo e que o Brasil pode ser parceiro em decisões inteligentes, autossustentáveis e de interesses mútuos na relação bilateral. Há mais dela em nosso cotidiano do ousamos perceber. Aliás, se o I Ching ensina a notar mudanças, está mais do que na hora de reconhecermos que a China é o novo centro do mundo.
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