Não é uma partida de futebol

Há cerca de trinta dias das Eleições Municipais e com uma grave pandemia ainda acontecendo, o interesse do brasileiro pela escolha de vereadores e prefeitos parece longe de algum nível relevante de comprometimento. 

É de fato difícil manifestar interesse por política quando mais de 150 mil vidas foram perdidas por irresponsabilidade daqueles que estão agora no poder e que são os responsáveis diretos por gerir as orientações ao cidadão e administrar o sistema de saúde. 

Frutificou na cultura brasileira ao longo do tempo uma certa ojeriza pelo sistema politico, nosso caráter irreverente como que pouco reconhece a relevância do pleito e elege párias e escroques como Tiriricas e Bolsonaros.

Consciência política e, sobretudo, uma legítima corresponsabilidade eleitoral constroem-se através daquilo que nos foi mais neglicenciado ao longo da história: educação de qualidade e justiça social. Não se pode esperar de um povo que não recebe educação pluralista e de qualidade qualquer tipo de responsabilidade na hora voto. Se para tudo dá-se um jeito, não faz realmente diferença quem esteja no poder. No limite, tanto faz, estaremos todos na merda e vamos dando nossos pulos conforme a banda toca. Ou, pior, muito pior, eleição vira uma espécie de torcida e, ganhe quem ganhar, daqui dois anos tem mais. Não tem mais! Por irresponsabilidade dos múltiplos atores políticos, o desemprego bate recordes, o arroz custa caro, os biomas incendeiam, a nação virou chacota internacional e centenas de milhares de famílias estão enlutadas.

Se, enfim, entendêssemos que eleição não é brincadeira e que nossas próprias vidas são ameaçadas quando fazemos más escolhas, talvez levássemos o pleito mais a sério. E não digo ameaça apenas no sentido de evitarmos governos fascistas ou obviamente falaciosos, ameaça no sentido geral, de colocar nossas existências em xeque por um projeto de poder limítrofe e autoritário.

Quanto mais considerarmos as eleições como uma espécie de partida de futebol, mais teremos nossas seguranças jurídica e alimentar, empregos, direitos, educação, cultura e qualidade de vida ameaçados por políticos que se consideram acima da lei e dos outros seres humanos. 

Se, ao invés de elucubrar sobre 2022, dermos mais atenção ao que acontece nas cidades, é possível que comecemos uma transformação significativa. Uma re-humanização das cidades pode levar a uma re-humanização do Brasil e da relação das pessoas com a política. Prefeito não é síndico. Suas atribuições vão da primeira infância (creches) ao leito de morte (cemitérios), passando por uma gama de decisões que interferem diretamente no dia a dia de cada um: transporte, moradia, limpeza urbana, acolhimento de pessoas em situação de rua, iluminação pública, são todas atribuições do prefeito.

Dar atenção ao que acontece no município é a maneira mais direta de dar dignidade às pessoas que vivem nele e construir alguma igualdade social entre as aqueles que vivem mais perto uns dos outros. Voto é coisa séria e, no Brasil, é dever de todos. Envolver-se com o que acontece na cidade é o modo mais imediato de exercer cidadania e começar a pavimentar um caminho em que a vida e a dignidade de todos importem. 

Crie interesse pelas Eleições Municipais, escolha um candidato que pode realmente diminuir desigualdades e não se leve apenas por aquele cujo discurso agrada mais à sua torcida. A ação política que é melhor para todos, sem distinções ou privilégios, certamente será também a mais justa para você. Participe das eleições com seriedade. O Brasil todo se tornará mais maduro.

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