Mamacita
O que você faria se, por um prazo determinado, cada passo da sua vida fosse devassado por milhões de pessoas; visto, revisto, comentado e julgado por toda nação? A premissa central do Big Brother segue aterrorizante e sedutora há duas décadas.
Os tempos mudaram, é verdade. Atualmente, famosos e anônimos oferecemos detalhes de nossas intimidades na praça pública das redes sociais sem muito pudor. Mas por mais fúteis ou mal calculadas que sejam nossas postagens, nada chega perto do escrutínio diário na maior rede de televisão do país e em dezenas de plataformas e perfis dedicados exclusivamente ao programa.
Pelo segundo ano consecutivo, aliás, acompanhar o BBB foi uma espécie de alívio cômico à catástrofe nacional em que nos metemos. A questão é que o Big Brother Brasil leva mais longe o limite entre ficção e realidade ao qual somos tão afeiçoados. Ele não é exatamente a realidade, mas também nunca a deixa de ser.
A edição deste ano tocou em feridas sérias ao escancarar tortura psicológica e ao bater na velha tecla brasileira do racismo. Famosos e anônimos cometeram dentro da casa erros e atrocidades que conhecemos todos muito bem do lado de cá da casa BBB.
Fato é que o programa sai enorme em sua vigésima primeira edição. Muita coisa mudou desde sua estreia, mas tudo ainda continua meio igual. Gosto da lógica do Big Brother, uma espécie de experiência científica em que não se sabe ao certo se as cobaias somos nós ou eles. Gosto da maneira como o Big Brother funciona, meio verdade, meio mentira, vamos todos criando a ilusão de que estamos controlando aquela narrativa, o que inclui o famigerado Boninho e a própria TV Globo. Gosto do quanto o BBB é um tipo de espelho desconexo do próprio Brasil – como tudo por estas paragens, antropofagizamos nosso próprio jeito de brincar e de televisionar o Grande Irmão. Estudiosos do romance, aliás, teorizam que a parte sintetiza o todo, do mesmo modo, o Big Brother Brasil é um microcosmo sintomático anual de um estado de coisas das experiências que testemunhamos e vivemos no país, uma parte do todo.
De qualquer maneira, se algo chamou mais atenção na edição de 2021 é sem dúvida a derrocada de Karol Conká, artista consistente que praticamente arruinou a carreira graças ao sadismo e ao recalque que lhe acometeram. Sim, recalque, no mais freudiano sentido do termo. Sou da turma do jogo é jogo, vida é vida. Já foi, que se reerga! O BBB é, antes de mais nada, entretenimento de massa na televisão. Que a final, na próxima terça, consagre a consistência de Juliette e o divertimento que Gil do Vigor entregou desde o primeiro minuto. À Mamacita, e a todos nós, um pouco de Freud viria bem a calhar.
Big Brother Brasil 21
De: John de Mol.
Direção: Rodrigo Dourado e Boninho.
Com: Tiago Leifert, Fiuk, Juliette Freire, Gilberto Nogueira Júnior e Karol Conká.
TV Globo. Brasil, 2021.
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