Escola
Desde que retornei a São Paulo, cerca de dez dias atrás, uma única questão não sai da minha cabeça: por quanto tempo mais isso vai durar? Já estamos há quase quinhentos dias imersos em incertezas e negacionismo. É bem verdade que algumas pessoas retomaram suas vidas como se praticamente nada estivesse acontecendo, por dever de ofício ou puro egoísmo, como também é fato que uma parcela da população, ainda que ínfima, tomou a tal vacina. Mas não é possível que as pessoas considerem que esteja tudo bem.
Sem nem ao menos mencionar a quantidade absurda e crescente de mortos por causa da pandemia, a ameaça de novas cepas ou ainda o surreal atraso de uma campanha consistente e continua de vacinação em massa, é impossível que ainda assim pessoas achem que a vida voltou ao normal e que já se pode viver como se não houvesse amanhã – do jeito que a coisa anda, talvez nem haja mesmo.
Estive com uma pequena parte dos meus alunos nos últimos dias, e confesso que senti alegria, principalmente em encontrar aqueles que estão terminando o ciclo escolar de suas vidas em condições tão adversas. Ao menos os vi, pudemos conversar sobre amenidades e até rimos um pouco, sem o intermédio insuportável e castrante das telas de computador. Mas seguramente não se pode considerar isso como uma situação normal.
Sinto orgulho do meu trabalho, faço o que posso, me honra poder fazê-lo e amo meus alunos. Amo o conhecimento, sobretudo, e me enche de alegria poder transmiti-lo a pessoas que me querem bem e até admiram talvez. Sinto pena do buraco em que nos enfiamos e de a educação ser uma das principais vítimas do algoz.
Há dias da semana em que eu chego a falar por quase doze horas seguidas ininterruptamente. Nunca me importei, é um dos meus dias favoritos da semana. Mas de máscara é bem difícil. Sinto como se estivesse dando as aulas com o giz numa mão e o diafragma na outra, pedindo a Shiva para que minhas horas de yoga e meditação tenham fortalecido o órgão.
A máscara, no entanto, tem a habilidade de me lembrar que aquilo não é uma situação normal e que estamos em um estado da mais absoluta exceção, por mais que pulsões egoístas, negacionismo e a estafa dessas circunstâncias teimem em nos fazer pensar que não.
Se há algo que a pandemia ensinou indistintamente é sobre responsabilidade: responsabilidade com a própria saúde, responsabilidade com a saúde dos outros, responsabilidade pelo genocídio de quase quinhentos mil brasileiros e responsabilidade por tirar de uma geração inteira o direito inalienável de frequentar a escola. É bom estar com meus alunos, ao menos é um algo em que acreditar.
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