Uma terra prometida

Há momentos sublimes na História. Nossa geração testemunhou um deles há exatos doze anos: em 20 de janeiro de 2009, Barack Hussein Obama era empossado presidente dos Estados Unidos da América, o primeiro presidente negro no mais alto cargo da até então inquestionável potência mais poderosa do mundo.

O fato de Obama ser um homem preto em um país forjado nas mazelas da escravatura sem dúvida valida de maneira sólida o que ele representava para o mundo e dimensiona o peso de seu valor histórico. Todavia, é preciso olhar Barack Obama para além da evidência étnica, sem deixar de incluí-la, e tentar compreender um pouco o que significou o seu governo. 

Tenho clara memória de quando, Angela Merkel, primeira ministra alemã, com a solidez rígida que a caracteriza, despedia-se em um misto de melancolia e orgulho do colega que tanto representava para o mundo. Obama, durante os dois mandatos, pareceu perseguir da melhor maneira que pode a responsabilidade de ser Nobel da Paz. Se talvez as armas não tenham sido baixadas como deveriam durante seu governo, ao menos incutiu mentalidade em torno desse ideal.

Acima de tudo, Obama foi um estadista. Chefe de uma nação vista com maus olhos em muitos aspectos e ao mesmo tempo como totem para tantas outras, o grande sonho americano é, sem dúvida, o ideal de liberdade; mais que isso: o ideal de liberdade para todos; a real possiblidade de igualdade de condições para quem quer que seja, e o dever do contrato social de garantir tais possibilidades indistintamente.

Sabemos que os Estados Unidos estão longe desse ideal – até mais agora do que nunca – mas isso não quer dizer que Obama não o representasse e nem que não tenha feito o que pode e como pode nas condições daquele momento. 

Acabo de ler a autobiografia Uma Terra Prometida, em que o ex-presidente relata de maneira envolvente sua trajetória até a Casa Branca e as principais decisões que tomou, culminando a narrativa com a captura e morte de Osama Bin Laden, outro acontecimento memorável do século XXI.

Mais do que relatar minuciosamente suas decisões e que considerações levavam a cada ato, Obama tem um olhar absolutamente humanista sobre tudo o que o cerca, das conjecturas mais decisivas para a História até o afeto pelo cachorro Bo. 

Há belas considerações acerca do Brasil, sobre as figuras de Lula e Dilma e sobre o Corcovado, onde uma breve prece pode ter levado à segurança de fazer o que considerava correto.

Obama escreve lindamente. Hoje, 20 de janeiro de 2021, os Estados Unidos começam a escrever uma nova história para si. Que seja de esperança! E que afaste definitivamente a hipocrisia, o desrespeito e a perversidade para as quais arrastaram o mundo nos últimos quatro anos.


OBAMA, Barack. Uma terra prometida. Companhia das Letras, 2020. 

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