Como as sociedades lidam com doenças

Diferentes enfermidades despertaram o pavor e a ansiedade de nossa miséria humana ao longo dos séculos. A crise do coronavírus não seria uma novidade em si mesma se nossas organizações sociais não tivessem mudado tanto e tão rápido nas últimas sete ou oito décadas.

Para além da necessidade evidente de imunizar a população e da desesperadora incompetência do poder público, uma outra realidade despertou atenção ao longo dos meses. Se é fato que a medicina avança a passos largos, acende meu interesse um outro viés da questão: como as sociedades lidam com doenças?

A hipótese que vem a mente é que, diante do desconhecido ou pouco informado, a sociedade responde com preconceito. Essa é a resposta imediata: se eu não conheço ou não sei lidar, quero manter distância. Foi assim com a tuberculose, foi assim com o HIV. E, quando a ciência começa a desvendar o enigma, o preconceito, antes talvez justificável, torna-se estigma ou irresponsabilidade. Estigma como o que ocorre com a infecção por HIV, embora o HIV seja hoje altamente controlável e possa ser tratado como uma doença crônica comum à semelhança de colesterol, diabetes ou asma. Irresponsabilidade como a que temos testemunhado amplamente nos desdobramentos da crise da COVID, seja por prepotência, burrice, descaso ou gestão de risco. 

Entretanto, também há um outro tipo de preconceito com relação a doenças, igualmente lastimável, como quando se fica sabendo que alguém está com um tumor e imediatamente essa pessoa passa a ser vista como “coitadinha”. Evidentemente, ninguém está diminuindo o susto ou a gravidade de um câncer, apenas refletindo o quanto, por mais fragilizado que um doente esteja, ele não se torna um inválido por isso, mas alguém passando por uma situação grave, que precisa de acompanhamento e merece atenção. 

  Tudo isso me levou a pensar sobre como lidamos com doenças, até que veio às minhas mãos um livro entitulado Você tem a vida inteira, de um jovem brasileiro chamado Lucas Rocha. No enredo, três pessoas se veem as voltas com o drama da infecção por HIV, mas diferentemente do que estamos acostumados a ver, não há um drama por conta da AIDS, a doença sequer existe, uma vez em que a infecção está sendo tratada e que, portanto, nem mesmo se manifesta. O conflito das personagens é de outra ordem, que passa, é claro, pelo medo da AIDS, mas que se revela para muito além dele: para a necessidade de seguir a vida adiante e se dar a chance de ser feliz. 

O HIV ainda é uma realidade no mundo, mas já não é mais tudo isso. A COVID também deixará de sê-lo, desde que a lição primeira seja o cuidado de não espalhar o vírus. 


ROCHA, Lucas. Você tem a vida inteira. Rio de Janeiro: Galera, 2018.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Orgulho 2021

Curadoria de inutilidades

Sintomática