Onda

É habito de alguns dos maiores dicionários do mundo eleger a palavra do ano: um termo, um vocábulo, uma única palavra que seja capaz de sintetizar todas as reviravoltas dos últimos doze meses. O desafio já não seria pequeno em um ano comum, 2020 intensifica o desafio. 

Evidentemente, a proposta exige algum nível de arbítrio. Reduzir os acontecimentos a uma única palavra não é tarefa que saia ilesa a dose não pequena de sintetização, mas vale como jogo ou mesmo como lampejo do espírito do tempo. 

Arriscaria dizer que o termo eleito para este ano será “lockdown”, com suas variantes brasileiras “trancadão”, “trancadaço" ou “fecha tudo”. Acho legítimo. O terror da pandemia só começou a ser levado a sério quando o poder público viu-se obrigado ao inevitável: paralisar a economia mundial antes que a Covid encerrasse a possibilidade de sequer voltar a haver uma economia para ser trancada. 

As consequências são óbvias e tornar-se-ão mais evidentes a partir do ano que vem, quando as vacinas enfim chegarem a toda a população mundial. Tarefa que não será fácil, sobretudo nos países pobres, pouco instruídos ou com governos negacionistas. O Brasil encaixa-se nos três.

Eu, contudo, escolheria o vocábulo “onda”, não apenas como representativo do ano que tivemos, como também da década que se encerra. Foram várias: as que chamam mais atenção talvez sejam a conservadora neofascista, negacionista e imbecil, e a de corona, com o requinte de uma segunda onda. O Brasil vale dizer, nunca saiu da primeira, seja de covid, seja de elitismo.

O que mais frustra nesses processos não é apenas sermos incapazes de aprender lições quando ainda é tempo. A onda de protestos em 2013, por exemplo, deu no que deu: destituição da única mulher a presidir o Brasil e ascensão daquele que seria responsável por quase duzentas mil mortes. Para além disso, nossa insistência em repetirmos os mesmos erros, indefinidamente, como se nada importasse. 

Passei o último final de semana em São Paulo, por causa das eleições. Eu não dormia no apartamento desde março. Fiquei surpreso com o clima de pouco caso em bares, avenidas e até baladas. Pensei em todas as pessoas que, de algum modo, têm relevância para mim ou para minha história. Senti vontade de saber se estão levando a sério, se continuam se resguardando, se, como eu, sentem-se meio idiotas, ou se caíram no estelionato eleitoral. 

A Covid ainda não nos deixou. A ideologia bolsonarista nos deixará longe da vacina no mínimo até março, outras vidas serão postas em riscos nas próximas semanas… Mas formou-se, nas últimas semanas, uma outra onda, surgida nos rincões da periferia paulistana, surgida em Porto Alegre, no Recife e algumas outras cidades, uma onda de senso de responsabilidade social e preocupação com o próximo, uma onda impulsionada por um pensamento mais humanista. Ela ainda não espraiou, mas vai. Se não hoje, amanhã. Mas é certo que vai. E ela há de lavar o país da mancha obscurantista em que estamos imersos.

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