Exu matou um pássaro ontem

Talvez o único e grande ganho desta catástrofe tenha sido a oportunidade e mesmo a obrigação de parar e pensar um pouco. Não o tipo de pensamento irrefletido, quase um impulso, que nos leva a tomar decisões em cima de decisões sem nem ao menos cogitarmos o que realmente pode acontecer ou desdobrar das ações que praticamos levados pelo frenesi dos dias. Quantas consequências poderiam ter sido evitadas, quantas histórias de amor teriam fins mais belos, quantas vidas teriam sido poupadas, quanta humanização poderíamos ter legado…

De umas décadas para cá, o mundo parece ter caído sobre nossas cabeças e em nossos colos repousa uma bomba prestes a explodir. Não sei o que há com o mundo e muito menos com as pessoas, o planeta agoniza a olhos vistos e nós continuamos ascendendo governos autoritários. Um colapso parece certo se algo não for feito imediatamente.

Costumo dar particular atenção às redes sociais de pessoas que, como eu, fomos crianças ali pelos anos 1990. Nós somos a geração que recebeu o mundo sobre as cabeças e a bomba sobre nossos colos. Testemunhamos a chegada dos celulares e da internet à vida de gente comum e somos capazes de nos lembrar do cotidiano sem esses recursos.

Tenho orgulho da minha geração. A gente se desdobra para dar conta de tudo e resiste para não perder a essência. Se é verdade que recebemos de nossos pais um mundo mais livre, também é verdade que coube a nós a responsabilidade de consolidar as lutas e as conquistas por igualdade: de gênero, de etnia, de sexualidade, de discurso e, acima de tudo, de comprometimento.

Às vezes não é fácil! Queremos que todo mundo fique bem, que tenham suas subsistências garantidas, que tenham acesso a educação de qualidade e uma cultura plural, que comam e bebam, que exerçam sua fé, que possam ir e vir, que amem e que não votem em genocidas. 

Minha geração está aí. Não somos o amanhã e muito menos o ontem, somos o agora: professores, atores, intelectuais, pedagogos, psicólogos, produtores culturais, músicos, engenheiros, publicitários, médicos e alguns até políticos. Ninguém tem absoluta convicção do que está fazendo, mas estamos tentando da melhor maneira que podemos.

O documentário AmarElo: é tudo pra ontem, do Emicida, me lembrou da urgência do que estamos fazendo e de que somos nós os atuais agentes dessa transformação. Estamos conseguindo a realização de um mundo mais diverso, estamos vencendo o desafio de construir o futuro conscientes do passado, afinal, as mudanças pelas quais a gente luta, como tudo para nossa geração, são como aquele pássaro que Exu matou ontem com uma pedra que só jogou hoje. 

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