Mistério sempre há de pintar por aí
Há vivências homéricas, apropriações conscientes de pertencimento histórico, situações e pessoas que ampliam a intuição de não estarmos sozinhos e de sermos fluxo de um processo longo e humano de agir e construir nossa vã humanidade. Experiências que denunciam algo de superior e elevado na realidade do mundo, sensações curiosas de que o etéreo toca a imanência
Sempre admirei Caetano Veloso, seu jeito quase anárquico de pensar e comentar os acontecimentos costumam dar certeza de que certezas não as temos nenhuma. Demorei para descobrir Gilberto Gil, não que eu não soubesse de sua existência, mas levei mais tempo para cruzar a minha com a dele.
A primeira vez que o vi foi na Virada Cultural, em 2012. Tempos idos de um Brasil que dava gosto expressar brasilidade. Naquele ano, nós, brasileiros, ainda sentíamos alegria em tomar as ruas, ver pessoas, celebrar a vida, encontrar os mestres. Uma amiga da época sugeriu irmos ao show na Praça Júlio Prestes, eu, então menos avesso às intempéries do acaso, intuí que algo de poderoso poderia sair daquele encontro, embora, confesso, não esperasse muito de um senhor de, então, 70 anos.
Foi catártico! Gil levou a multidão à loucura: cantou, dançou, comoveu, impressionou mentes e almas de todos ali. Eu nunca imaginara que fosse possível tamanha felicidade partilhada entre pessoas tão radicalmente separadas pelos abismos sociais – vale lembrar que a Praça Júlio Prestes é contígua à “Cracolândia”, mazela paulistana de décadas.
Nunca mais olhei pra Gil do mesmo modo. Passei a escutá-lo de maneira diferente, passei a entendê-lo de maneira diferente, passei a ver nele mais do que sua figura indicia. Gil é sua história, toda a grandeza de sua existência reluz de seu riso frouxo e largo e de sua simplicidade baiana.
Entre 2015 e 2016, Gil e Caetano fizeram juntos uma turnê para celebrar sua amizade e seu meio século de carreira. Vi o show duas vezes. Na estreia, o contexto era totalmente outro: para mim, havia recém conquistado independência financeira; para o ambiente, uma casa de shows na zona sul de São Paulo. Sem o frenesi da multidão, essas experiências foram muito mais contemplativas. Sozinho, sentado na cadeira, fiquei embevecido com aqueles dois homens, que falam tanto sobre mim sem nem saberem quem sou, que falam tanto sobre nós sem nem ao menos termos certeza se há um nós, que falam tanto do Brasil quando nem mesmo o Brasil sabe ao certo se ainda há um Brasil que valha ser cantado por eles.
No encerramento da turnê, Gil estava abatido, cansado, adoecido. O corpo não parecia guardar o viço que me fascinara; a alma, ao contrário, manifestada em sua voz, dava a ele, a Caetano, ao concerto e a todos ali uma densidade reflexiva ainda mais acachapante: a morte, um dia, chegará para todos. E Gil encarava o monstro de frente. A diferença de um ano entre os dois shows o fez acrescentar à turnê versos que traduzem o maior drama do gênero humano desde que se entendeu neste mundo: “não tenho medo da morte, mas sim medo de morrer”. Torci muito para que Gil vivesse.
Recuperado, em 2018, ele deu início a uma turnê batizada de Ok Ok Ok, novamente vigoroso, animado, dançante, encantando a plateia e mais espiritualizado do que nunca. O show manifesta profundas raízes africanas. Talvez você não saiba, como eu não sabia, mas “okê” é uma saudação a Oxóssi, entidade iorubá, e provavelmente venha daí o coloquial “ok” usado no Brasil. Sua historia de vida, sua representatividade, sua música, sua importância, tudo nele, revelaram-me aquilo que não tive maturidade para entender das outras vezes: Gil é um Deus africano vivendo entre nós, abençoando-nos com sua música e com o deleite de sermos parte do mesmo momento histórico que ele, dando-nos a honra e o dever de zelar por aquilo que resta do orgulho de ser brasileiro.
Quando li Verdade Tropical, do Caetano, nada me comoveu mais do que o relato sobre seu parceiro e amigo de toda uma vida. Havia, há e haverá algo naquele homem preto que é parte do mistério. Gil está para além da materialidade de seu corpo, para além da razão humana, e pertencerá à alma brasileira por todos os séculos. Salve Gil! Viva seus 78 anos! Ouçamo-lo sempre, não costuma faiá.
Comentários