E nem era favorável...

Dentre as tantas excrescências a que estamos submetidos, uma salta aos olhos para uma parcela enorme da população brasileira: a indefinição de data para o Exame Nacional do Ensino Médio, adiado, inevitavelmente, graças às políticas genocidas de negacionismo científico, perseguição a jornalistas e estupidez generalizada.

Sem saúde, sem cultura, sem educação e, sobretudo, sem nexo, o país segue acelerado para o abismo, do qual só sairá a muito custo. O mais espantoso de tudo: o desgoverno tem método. Decidiu transferir aos candidatos do ENEM a responsabilidade de escolha entre três datas possíveis, todas elas igualmente desfavoráveis para os próprios inscritos.

Por mais que possa parecer democrática a possibilidade de opinar sobre a realização da prova, o vestibular é um processo injusto, baseado em meritocracia e desigual em todas as suas circunstâncias. Um exame efetivamente universal, demandaria iguais condições de concorrência para absolutamente todos os mais de seis milhões de candidatos, o que só ocorreria se houvesse paridade entre as escolas brasileiras e acesso irrestrito à educação de qualidade. Como foi proposta, a escolha da data já é, de partida, uma competição, pois cada um indicará a data que parecer melhor para si e não para todos. Em um concurso público, se pressupõem que todas as regras estejam postas antes da decisão, intransferível, de se submeter a ele. Ainda que injusto e meritocrático, alguém se dispõe a concorrer a uma vaga porque conhece as regras de antemão, mesmo sabendo que pode estar em desvantagem em relação a outros concorrentes.

Sim, estamos vivendo uma pandemia e isso altera as regras do jogo, mas também evidencia a política de caos a que estamos subjugados. Sem o negacionismo da crise, com estudo e responsabilidade, uma nova data para o ENEM poderia ter sido decidida antes mesmo da abertura das inscrições. Como tudo o que vem nos rodeando, as polaridades se invertem: o que parece democrático é, na verdade, exercício de autoritarismo e manipulação.

Três datas foram propostas, todas igualmente ruins: dezembro de 2020, janeiro de 2021 e maio de 2021, sendo esta última a pior delas. Explico: jogar a prova para maio do ano que vem pode até parecer mais justo com aqueles que estão longe da escola há meses, por causa da pandemia, contudo, essa data cria três principais discrepâncias: a primeira delas, mais ingênua, é alimentar nos alunos a ilusão de que haverá mais tempo para estudar. Isso é falso. Seja porque, com a licença da generalidade, preterir deveres é dilema comum, ou, mais grave, porque atrasar o exame não diminui as desigualdades escolares. Segundo: realizar a prova em maio do ano que vem compromete dois anos letivos seguidos, este, vigente, que perde parte de sua função, e o subsequente, que sobrecarrega com a realização de dois ENEM - isso se de fato ocorrerem duas provas  ano que vem, a possibilidade de cancelamento já foi aventada. Terceiro: caso o comprometimento do ENEM seja drástico, as universidades, em sua autonomia, podem simplesmente decidir realizar vestibulares próprios, o que nos levaria a um enorme retrocesso, elitizaria ainda mais o acesso ao ensino superior, excluiria muitas classes sociais e enfraqueceria de vez a percepção de que o ensino superior é também para os menos favorecidos.

Janeiro parece uma boa opção, mas é preciso levar em consideração que grandes universidades já manifestaram interesse em realizar seus vestibulares nesse mês, o que impossibilitaria aos alunos a participação em diferentes processos. Universidades são instituições sérias, estão para além de governos e não podem ser comprometidas por intempéries ideológicas. Ensino, pesquisa e extensão, os pilares de uma grande universidade, dependem de planejamento, organização e comprometimento.

Dezembro também não muda em nada a desigualdade e compromete boa parte dos alunos. Pode ser uma opção se levarmos em consideração que o ENEM se propõe a aferir nota para uma jornada estudantil de anos, mesmo que em escolas menos preparadas, e não para os meses que o antecedem. Quiçá seja favorável ao aluno envolvido com o processo estudantil desde seus primeiros anos escolares.

De qualquer perspectiva, não é um problema fácil de solucionar. Os poucos avanços que a educação brasileira teve nas últimas décadas está agora sob jugo de uma administração que não sabe o que é Educação, não a valoriza e, principalmente, a teme. Pior ainda é admitir que todas as possibilidades são prejudiciais e que caímos nesse impasse porque decidiram negar o conhecimento e empurraram a nação para uma pandemia que já matou mais de cinquenta mil brasileiros. Seja lá qual for a data escolhida, o ENEM só será realizado se antes conseguirmos conter o coronavirus.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Orgulho 2021

Curadoria de inutilidades

Sintomática