Ficção brasileira
A narrativa ficcional brasileira talvez seja o que de melhor foi criado para falar de nós ao mundo. Quão brasileiramente universais são as linhas de Machado de Assis e quão profundamente humanas são as vivencias de amor e mistério no ser-tão de Guimarães Rosa. A ficção nacional e o modo como lidamos com ela despertam o interesse de intelectuais do mundo todo, particularmente desde que encontrou sua forma mais popular e rentável: a telenovela.
A ascensão de transmissões por demanda e a popularização do formato das séries botou a novela de televisão em xeque: profetizaram seu fim e anunciou-se que o reality show seria seu substituto natural. De uns tempos para cá, se questiona, se desmerece, se torce o nariz, mas telenovela é uma longeva paixão nacional.
Nada para mim substitui o dramalhão e a intensidade de um bom novelão. As séries são incríveis, os realities engajam, mas novela é novela. É bem verdade que houve certo marasmo: por décadas medalhões revezaram-se no horário nobre da tv brasileira e foram do luxo ao lixo, de volta ao luxo e outra vez ao lixo; só que esses caras foram realmente muito bons e produziram a história do audiovisual brasileiro. De fato, a qualidade de produção de uma novela da Globo é inquestionável e entendidos do mundo todo o reconhecem, mas os enredos foram ficando meio apáticos, previsíveis ou clichês demais.
Nossos atores e atrizes são dos melhores que existem, e não estou sendo dramático ao afirmar isso, nossos intérpretes realmente são de ponta e superam muita gente renomada de produções internacionais mais afortunadas. Mesmo assim, era preciso renovar o gênero da telenovela, meio maltratada pelo público, mas ainda um amor nacional meio recôndito. Então, fui surgindo uma nova geração de autores: João Emanuel Carneiro, Bruno Luperi, Thelma Guedes e agora Manuela Dias, autora de Amor de Mãe.
Na novela, Lurdes (Regina Casé, atrizona raiz) está há mais de duas décadas em busca do filho que lhe foi tirado aos dois anos de idade. Thelma (Adriana Esteves, sempre surpreendente) sustenta à base de crimes cada vez mais graves o surto psicótico que lhe acomete. Vitória (Taís Araújo, no auge do sucesso) encontrou um caminho de redenção na maternidade e na justiça social. Sem falar do inescrupuloso Álvaro (Irandhir Santos, ator visceral), do humanizado Raul (Murilo Benício, no melhor papel da carreira) e do ativista Davi (Vladimir Brichta, digno em qualquer atuação). Além de Camila (Jéssica Ellen, em ascensão) e Danilo (o impressionante Chay Suede) que sofrem as agruras de um mundo hostil, o nosso, sem espaço para qualquer idealização.
As oito personagens que dividem o protagonismo de Amor de Mãe e todas as demais vivem em linhas dramáticas o Brasil que somos e o Brasil que queremos ser, num enredo entremeado de doses nada homeopáticas da bruta realidade que nos cerca desde sempre, havendo até espaço para a mais contemporânea delas, a pandemia de Covid-19. Telenovela continua sendo o espelho do Brasil: somos nós na tela e a tela nos moldando um pouco a nós. A autora e o diretor José Luiz Villamarim produziram a melhor telenovela dos últimos dez anos. Por produções assim eu abandono qualquer série americanizada, me orgulho da nossa própria ficção e me sinto profundamente brasileiro, como as personagens que vemos na telinha.
AMOR DE MÃE
De: Manuela Dias
Direção: José Luiz Villamarim.
Com: Regina Casé, Adriana Esteves, Taís Araújo, Irandhir Santos, Murilo Benício, Vladimir Brichta, Jéssica Ellen e Chay Suede.
TV Globo. Brasil, 2021.
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